A Derrota de Messias
Brasilistão acordou do coma profundo. Mas apesar de rejeitar o abortista e militante Jorge Messias ao STF , o paciente segue em estado vegetativo
Havia um roteiro. Estava escrito, ensaiado, decorado. As falas distribuídas, os atores posicionados, o cenário montado. A máquina estava ligada, o resultado esperado, e o Brasil deveria apenas assistir — como sempre assistiu. Mais um nome escolhido a dedo, mais uma cadeira capturada, mais trinta anos de poder concentrado numa única toga. Era para ser assim. Mas no dia 30 de abril de 2026, o roteiro foi rasgado na frente de todo o país. 42 votos contra. 34 a favor. Jorge Messias, Advogado-Geral da União, homem de confiança pessoal do presidente Lula da Silva, foi rejeitado pelo Senado Federal. Pela primeira vez na história republicana do Brasil, um indicado pelo Presidente da República ao Supremo Tribunal Federal foi derrotado em plenário. Não é um dado estatístico. É um marco. É um antes e um depois.
Quem acompanhou as semanas que antecederam essa votação sabe que o governo não mediu esforços. Sabe que não foi por falta de tentativa. A articulação foi intensa, agressiva, sistemática — e ainda assim insuficiente. Para entender a dimensão da derrota, é preciso primeiro compreender a dimensão da operação que foi montada para evitá-la.
O mecanismo é sempre o mesmo. Não há nada improvisado. Funciona como uma operação tática bem planejada: reconhecimento do terreno, mapeamento dos alvos, distribuição de recursos e execução coordenada. Primeiro, o governo identifica os votos incertos. Depois, trabalha cada um deles. Senadores são trocados nas comissões com a frieza cirúrgica de quem move peças num tabuleiro. Sérgio Moro, crítico declarado da indicação, foi retirado da CCJ e substituído por Renan Filho, aliado incondicional do Palácio. Cid Gomes deu lugar a Ana Paula Lobato, voto garantido para o governo. Isso não é política. Isso é engenharia de resultado. É a construção de uma maioria de laboratório, fabricada antes mesmo do debate começar. A margem foi ampliada de 14 para 16 votos na comissão — não por convicção, não por mérito do indicado, mas por movimentação tática de última hora.
E não parou aí. Jaques Wagner, Randolfe Rodrigues, ministros acionados, Wellington Dias temporariamente afastado do cargo para votar. A máquina inteira foi mobilizada. E junto com ela — como não poderia deixar de ser — vieram os bilhões. Aproximadamente 12 bilhões de reais em emendas parlamentares liberadas às vésperas da sabatina. Formalmente, é execução orçamentária. Na prática, dentro do sistema político brasileiro, é o que sempre foi: moeda de troca. O país conhece esse padrão. Nas indicações de Cristiano Zanin e Flávio Dino, o roteiro foi idêntico. Nos meses das sabatinas, bilhões foram liberados — no caso de Zanin, cerca de 2,4 bilhões apenas no mês da votação. Ninguém assina contrato. Ninguém precisa. O alinhamento de incentivos é suficiente. O mecanismo funciona justamente porque é invisível, porque é negável, porque habita o espaço confortável entre o que é ilegal e o que é simplesmente o Brasil funcionando do jeito que sempre funcionou.
Mas dessa vez não funcionou.Dessa vez, algo diferente aconteceu. E a pergunta que o Brasil precisa se fazer com honestidade é: por quê?
A resposta não é heróica. Não foi uma onda de coragem cívica que varreu o Senado. Não foi uma iluminação republicana coletiva. O centrão — MDB, PSD, PP e aliados — que sempre foi o grande beneficiado dessa engrenagem de compra de votos, simplesmente decidiu que Jorge Messias não era o seu candidato. Não por princípio. Por cálculo. O centrão não tem ideologia, tem preço. E dessa vez, o preço que o governo ofereceu não foi suficiente, ou o produto não era o que o comprador queria na prateleira. É isso. É sóbrio reconhecer: a maior rejeição histórica ao poder de um presidente no processo de nomeação ao STF foi, em grande medida, resultado de uma briga interna entre o projeto político lulista e os operadores do cartel político que sustenta Brasília. Os fios se cruzaram. E o resultado, apesar das razões tortas, foi correto.
Há algo de profundamente brasileiro nesse episódio. Puro suco de Brasil. Algo que faz rir e chorar ao mesmo tempo. O Senado fez a coisa certa pelos motivos errados. O país foi salvo, desta vez, não por seus guardiões, mas pelos seus próprios negociadores de plantão. Isso merece ser celebrado — brevemente. E depois, exige ser encarado com toda a seriedade que demanda.
Devemos sem dúvida tocar em um ponto bastante sensível : Alcolumbre provocou uma retaliação política ao nome de Messias motivada sobretudo pelo bloqueio do Governo Federal à exploração de petróleo e gás na margem equatorial, impactando diretamente o Amapá. Mas existem outros motivos. Porque o problema não é simplesmente Jorge Messias. O problema é o método. O problema é o projeto. Messias chegou à sabatina carregando três pecados que, individualmente, já deveriam ser suficientes para barrar qualquer indicação a uma corte que se pretende independente. Somados, revelam o núcleo do que está sendo construído no Brasil ao longo desse governo.
O primeiro pecado: ele é advogado pessoal do presidente. Não é suposição, não é especulação. É vínculo. É relação de confiança construída ao longo de anos de defesa jurídica pessoal. Um ministro do STF com décadas de mandato à frente que foi, até ontem, o defensor particular do presidente que o indicou. A pergunta é simples e não exige formação jurídica para ser respondida: quando uma causa envolvendo Lula ou seus aliados chegar ao STF, como esse ministro votará? Como ele poderia votar de outra forma? A imparcialidade não é apenas uma virtude judicial. É um pressuposto funcional. Sem ela, não há corte. Há um escritório jurídico com toga.
O segundo pecado: o 8 de janeiro. A participação de Jorge Messias naquele episódio não foi passiva. Ele mesmo admitiu ter solicitado ao ministro Alexandre de Moraes a prisão em massa das pessoas detidas naquele dia. Isso não é um detalhe processual. É a confissão de uma orquestração. Três nomes aparecem como artífices daquele roteiro: Alexandre de Moraes, Jorge Messias e Flávio Dino. O próprio ministro Luiz Fux, em voto que causou desconforto dentro do STF, sinalizou o caráter político das decisões daquele processo — decisões que miravam o presidente Bolsonaro e os manifestantes de 8 de janeiro muito além do que a frieza da lei poderia justificar. Colocar um dos arquitetos daquela armadilha na cadeira mais alta do Judiciário brasileiro não seria apenas um erro institucional. Seria uma provocação deliberada. Seria a blindagem jurídica permanente de um episódio que ainda não foi julgado pela história.
O terceiro pecado: o padrão. Dias Toffoli foi advogado de três campanhas presidenciais de Lula, além de ter sido, como Messias, Advogado Geral da União. Zanin era advogado pessoal de Lula. Flávio Dino era aliado político próximo. Messias era Advogado-Geral da União e homem de confiança. Três indicações. Três nomes sem qualquer distância institucional do presidente. Três nomes que chegaram ao STF não pelo brilho jurídico, não pelo percurso acadêmico, não pelo respeito transversal da comunidade jurídica — mas pela proximidade com o poder. Isso não é coincidência. É estratégia. É a construção metódica de uma maioria na Suprema Corte que funcione como extensão do Executivo. É a judicialização do projeto de poder.
Um ministro do STF tem mandato até os 75 anos. Jorge Messias, se aprovado, ocuparia aquela cadeira por aproximadamente 30 anos. Trinta anos. Governos vêm e vão. Presidentes são eleitos e derrotados. Maiorias no Congresso se formam e se dissolvem. Mas um ministro do STF permanece. E quando a composição da Corte reflete não a diversidade jurídica e ideológica da nação, mas a fidelidade ao projeto de um único presidente, o STF deixa de ser Supremo. Passa a ser um instrumento. Um bunker jurídico. Uma trincheira de última instância para blindar o poder contra qualquer tentativa de responsabilização.
O próprio inquérito das fake news, aberto há sete anos sob a condução do ministro Alexandre de Moraes, é a demonstração mais clara desse processo. Um inquérito que se expande, que absorve novos alvos conforme a conveniência política, que funciona como panóptico judicial — tudo pode ser puxado para dentro dele, qualquer oposicionista pode se tornar investigado, qualquer dissidência pode ser enquadrada. Aliados do PT peticionam diretamente a Moraes pedindo a perseguição de parlamentares de direita. O STF muda seus próprios precedentes. Reescreve interpretações. Altera o sentido da lei para alcançar resultados que a lei, em sua letra original, não produziria. Isso não é interpretação constitucional. Isso é legislação judicial. É poder sem mandato, sem prestação de contas, sem prazo de validade.
A derrota de Messias é, portanto, muito maior do que a derrota de um homem.É a primeira vez que o Brasil, por seus representantes eleitos — ainda que movidos por interesses misturados — disse em voz alta que há um limite. Que existe um ponto além do qual a engenharia de poder encontra resistência. Que a captura do Judiciário tem custo político. E que esse custo, desta vez, foi alto demais para ser pago.
O governo Lula colhe hoje o que plantou ao longo de três anos e meio de desgoverno. Plantou desrespeito ao Congresso e colheu insubordinação. Plantou ameaças veladas e colheu confronto aberto. Tentou governar pelo STF quando não conseguia governar pelo Legislativo — e o Legislativo, agora, apresentou a conta. A rejeição do IOF com placar de 383 a 98 na Câmara. A derrota na disputa pela presidência da CPMI do INSS, quando o candidato governista Omar Aziz foi batido por Carlos Viana. O PL da Dosimetria aprovado à revelia do Palácio. As “saidinhas” restringidas contra a vontade do governo. E agora, a derrota histórica no plenário do Senado. Não é uma sequência de acidentes. É um padrão. É um governo que perdeu a narrativa, perdeu a articulação e está perdendo o controle.
A frase lamentável do Ministro do STF André Mendonça — “o Brasil pode perder a oportunidade de ter um grande ministro do STF” — merece registro não como argumento, mas como sintoma. Quando um ministro da Suprema Corte faz lobby público por um colega a ser indicado pelo presidente, algo fundamental foi rompido. A fronteira entre o Judiciário e a política, que já era porosa, foi atravessada com desenvoltura. Isso não é grandeza institucional. É a exposição de um sistema em que os próprios guardiões da lei se tornaram agentes do poder que deveriam fiscalizar.
E outra frase triste da senadora Soraya Thórnicke — “assim que vestir a toga, não se esqueça dos amigos” — é ainda mais reveladora. Disse em voz alta o que todos sabem e ninguém deveria admitir. Que a toga não é o símbolo da imparcialidade. É uma fantasia. Que por baixo dela há um homem que deve favores, que tem amigos, que se lembra de quem o colocou ali. Se havia alguma dúvida sobre a natureza política dessas indicações, essa frase a dissipou com brutalidade honesta.
Por último , a mídia tradicional ainda incrédula e lamentando profundamente a derrota , chamando o episódio como “ corrosão da institucionalidade”. Ora , se o Senado não pode rejeitar um nome , então porque cargas d'água o processo passaria por lá ? Será realmente que essa mídia acha que a democracia “vibrante” que vivemos está em perigo?
Mas o que vem agora é a questão central.O senador Márcio Bittar foi preciso ao dizer que o Brasil está a poucos meses de uma eleição. Que o tema STF estará na pauta. Que o povo brasileiro, em outubro de 2026, terá a oportunidade de escolher que tipo de Supremo quer para as próximas décadas. Quer a continuidade desse modelo de Corte intimamente alinhada ao projeto do presidente Lula? Ou quer uma reforma? Quer um Judiciário que julgue pela lei, não pela fidelidade? Quer ministros escolhidos pelo mérito, não pela proximidade?
A vaga aberta deve, por lógica republicana e por responsabilidade histórica, permanecer sem preenchimento até que o próximo presidente tome posse. Não porque o STF não precise de um nono ministro. Mas porque o Brasil precisa ter a chance de decidir, através do voto, que tipo de poder quer instalar naquela cadeira por 30 anos. Qualquer tentativa do governo Lula de forçar uma nova indicação antes das eleições deve ser lida pelo que é: desrespeito à vontade popular. Uma última tentativa de consolidar poder antes que o poder seja contestado nas urnas.
A comparação que circula nas redes — “Qual o Messias que o Brasil precisa? Jorge Messias ou Jair Messias?” — não é apenas um jogo de palavras. É uma pergunta política genuína. E ela resume com precisão a encruzilhada em que o país se encontra. Do lado de fora do Brasil, há um processo em curso que merece atenção. Na Venezuela, oito ministros do Tribunal Supremo de Justiça alinhados ao chavismo foram destituídos como parte de uma transição mediada. O Banco Central venezuelano passa por auditoria americana. As Forças Armadas estão sendo pressionadas à reforma. O processo é lento, complexo, difícil. Vinte anos de regime não se desmontam em semanas.
Mas a direção é muito clara: para haver democracia real, é preciso primeiro haver um Judiciário imparcial. Um Judiciário que não sirva ao regime, mas à lei. O Brasil não está na Venezuela — mas o caminho que trilhou nos últimos anos levanta questões que qualquer observador honesto precisa formular. Quando o Judiciário muda seus precedentes por conveniência, persegue a oposição, abre inquéritos sem prazo nem limite e é recomposto com indicados do próprio presidente que será por ele julgado, a pergunta sobre a saúde da democracia não é exagerada. É necessária.
O Brasil acordou hoje com uma notícia que não esperava. Uma notícia que vale sim ser comemorada — com lucidez, mas sem euforia. Porque a batalha desta quarta-feira foi vencida. Mas a guerra por um Judiciário independente, por um STF que sirva à Constituição e não ao presidente de plantão, por um sistema político em que os votos não se compram com bilhões de emendas na véspera da sabatina — essa guerra está apenas começando.
O paciente acordou do coma. Mas ainda está na UTI. E está morrendo!
A reforma política é urgente. A reforma do Judiciário é inadiável. E a eleição de 2026 não é apenas mais um ciclo eleitoral. É, talvez, a última oportunidade de corrigir, pelo caminho democrático, uma trajetória que, se mantida, levará o país a um ponto sem retorno.
Perdeu, mané ! Que o placar de hoje — 42 contra 34 — seja gravado na memória do país. Não como vitória definitiva. Como sinal. Como aviso. Como o dia em que o Brasil, mesmo que por razões imperfeitas, disse ao poder que ele tem limites.
Tchau, Jorge. O Brasil ficou.
Francisco Carneiro Júnior
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Correta análise. Adicionaria ao rol de itens que formou a desgraça antecipada de Messias, aquilo que apontou Aldo Rebelo: retaliação política liderada por Davi Alcolumbre, motivada pelo bloqueio, por parte do governo federal (especialmente Ministério do Meio Ambiente e IBAMA), à exploração de petróleo e gás na margem equatorial, que impacta diretamente o Amapá.
Chora não bebê… kkkkk