A ILUSÃO DA SOBERANIA
O BRASIL DIANTE DE UM ESPELHO PARTIDO
“A pergunta que cada brasileiro deve fazer a si mesmo é profundamente moral: que tipo de nação queremos ser? A resposta está nas decisões que tomamos — ou que adiamos — hoje.”
Existe uma espécie de autoengano coletivo que as nações praticam quando confundem potência com independência, quando celebram o tamanho sem enxergar a fragilidade que habita as entranhas do gigante. O Brasil é um país que sabe navegar. Que projeta, que planeja, que inaugura. Que constrói submarinos e lança caças modernos ao céu do Cerrado. Mas que planta comida com adubo russo. Que processa dados em servidores de Seattle. Que faz girar o maior agronegócio do mundo com chips importados da Ásia. Esta é a contradição que nos define — e que precisamos, com coragem, encarar sem nenhuma anestesia. Ato contínuo, é urgente e fundamental que nossas autoridades e governantes deixem de apagar “incêndios” ( ou mesmo provocarem ) e passem a pensar em um Brasil daqui a 20, 30 ou 50 anos.
I. A FORÇA QUE SE VÊ: O ESCUDO MILITAR QUE O BRASIL ESTÁ CONSTRUINDO
Nações soberanas, no sentido mais profundo do termo, não são apenas aquelas que têm fronteiras demarcadas em papel. São aquelas que possuem a capacidade real de defender essas fronteiras, de projetar força e de existir com autonomia no sistema internacional. Nesse sentido, o Brasil vem, nos últimos anos, dando passos que merecem reconhecimento honesto — sem ufanismo, mas também sem a miopía de quem nega o que é concreto.
O Programa de Desenvolvimento de Submarinos — o PROSUB — é talvez o projeto estratégico mais ambicioso que o país já concebeu em tempo de paz. No Complexo Naval de Itaguaí, às margens de uma baía que já foi cenário de batalhas históricas, o Brasil está construindo o SN-10, o primeiro submarino de propulsão nuclear das Américas. Em 2025, as obras avançaram. A Marinha solicita ao governo federal R$ 1 bilhão adicional para manter o cronograma — hoje estimado em R$ 2 bilhões anuais, quando o ritmo ideal exigiria R$ 3 bilhões. O comissionamento está previsto para entre 2032 e 2034, mas os atrasos orçamentários apontam para a possibilidade de que o marco seja postergado até 2037. Não é uma crise — é uma guerra de prioridades, onde o estratégico precisa disputar espaço com o imediato.
A Marinha do Brasil também conduz um dos projetos de vigilância marítima mais ambiciosos do hemisfério sul: o SisGAAz — Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul. O nome não é metáfora. São 5,7 milhões de quilômetros quadrados de águas jurisdicionais que abrigam o pré-sal, rotas comerciais estratégicas e cabos submarinos de telecomunicações — um território oceânico equivalente à metade da superfície continental do país, e que precisa ser dominado com a mesma determinação com que se defende a terra. O sistema integra radares costeiros, câmeras de infravermelho, sensores autônomos e sistemas de identificação automática de embarcações numa rede de Comando e Controle em tempo real. A primeira Unidade de Vigilância Costeira, em Ilha Grande, deve entrar em operação ainda este ano de 2026. É um alicerce sólido — mas cobrir integralmente a Amazônia Azul ainda é uma meta no horizonte. O que está construído é a fundação. O que ainda falta é a muralha.
A Força Aérea Brasileira avança com o Projeto FX-2, os caças F-39 Gripen, desenvolvidos em parceria com a sueca Saab. Dos 36 aparelhos contratados, apenas 10 foram entregues até o início de 2026. Quinze serão montados em solo brasileiro — uma conquista que representa não apenas hardware, mas a transmissão de conhecimento industrial de alta complexidade. Há transferência de tecnologia. Há engenheiros brasileiros aprendendo o que antes era segredo de Estado estrangeiro. Isso tem valor estratégico incalculável.
A Embraer, empresa que é em si mesma uma anomalia positiva neste país — uma indústria aeronáutica de classe mundial gerada por vontade de Estado em 1969 — consolidou o C-390 Millennium como o maior avião militar fabricado em território nacional. O aparelho transporta tropas, cargas, faz reabastecimento em voo, combate incêndios florestais, e está sendo adquirido por forças aéreas europeias. É um dos raros momentos em que o Brasil exporta tecnologia militar, e não apenas matéria-prima.
O Exército opera o SISFRON, um sistema integrado de sensoriamento remoto, redes de dados seguras e centros de comando móveis que cobrem os 16.000 quilômetros da fronteira terrestre brasileira. A legislação aprovada em 2025 liberou R$ 30 bilhões fora do arcabouço fiscal para Defesa, com verbas distribuídas entre o SISFRON, drones Hermes 450/900, blindados Guarani e o sistema de artilharia ASTROS. O Brasil figura no Global Firepower 2026 na 11ª posição entre 145 países — a maior potência militar da América Latina, à frente de todos os vizinhos.
Este é o espelho que reflete a força. E é real. O problema é o que o espelho não mostra quando você vira para o outro lado.
II. AS CORRENTES QUE NÃO SE VÊM: A ANATOMIA DA DEPENDÊNCIA
Toda análise estratégica séria começa com uma distinção fundamental: a diferença entre o que um Estado é capaz de fazer e o que ele é capaz de sustentar sozinho. Um exército pode ser poderoso e ao mesmo tempo vulnerável. Uma nação pode ter força de projeção e ao mesmo tempo ter o coração preso nas mãos de outros. O Brasil está exatamente nessa encruzilhada.
Refém da Própria Fartura
O Brasil é a maior potência agrícola do Ocidente. Exportamos soja para a China, milho para o mundo, carne para todos os continentes. Somos o celeiro que alimenta bilhões. E somos, com essa mesma grandeza, completamente dependentes de insumos estrangeiros para plantar o que colhemos. Em 2024, o país importou 44,3 milhões de toneladas de fertilizantes, ao custo de US$ 13,5 bilhões. Em 2025, esse número subiu para 45,5 milhões de toneladas — e US$ 15,5 bilhões drenados das reservas nacionais em troca de nitrogênio, fósforo e potássio.
Mais de 85% dos fertilizantes utilizados no agronegócio brasileiro vêm de fora. No caso do potássio — insumo essencial para o cultivo de soja, milho e café, a espinha dorsal da balança comercial —, mais de 90% são importados. A Rússia respondia, em 2024, por 27,3% do total. A China, que representava apenas 5% das importações em 2016, saltou para 23% em 2025 e ultrapassou Moscou em volume absoluto, tornando-se o maior fornecedor individual do país. China e Rússia juntas controlam mais da metade do que o Brasil planta.
As consequências disso não são apenas econômicas. São geopolíticas. São diplomáticas. São constitucionais, no sentido mais profundo do termo — afetam a capacidade do Estado brasileiro de exercer soberania sobre suas próprias decisões externas. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e o mundo ocidental pressionou Brasília a tomar posição, tanto o governo Bolsonaro quanto, posteriormente, o governo Lula adotaram postura de neutralidade calculada diante de Moscou. Analistas do setor apontam, com clareza incômoda, que a dependência dos fertilizantes russos foi um fator real nessa equação diplomática. O Brasil não pôde falar o que pensava — porque precisava do que a Rússia vendia.
Em fevereiro de 2026, a ministra da Agricultura russa, Oksana Lut, veio pessoalmente a Brasília negociar um novo plano de cooperação no agronegócio. O encontro aconteceu no Palácio do Itamaraty — o templo da diplomacia brasileira. Isso é poder. Não o poder do Brasil, mas o poder que outros exercem sobre o Brasil.
E há mais. Em abril de 2026, China e Rússia passaram a restringir suas exportações de fertilizantes simultaneamente. A ureia subiu de preço por conta dos conflitos envolvendo o Irã — outro grande produtor global. Especialistas do setor repetiram uma frase que deveria ecoar nos gabinetes de Brasília: “Hoje estamos repetindo 2022, pior.” A próxima safra 2026/27 já acumula incertezas. O Brasil ainda não avançou em política pública para reduzir essa dependência — e continua refém de mais de 80% de insumos importados, transportados por modal marítimo em 99,43% dos casos. Qualquer ruptura nas rotas oceânicas — por conflito, por sanção, por instabilidade nos portos de Paranaguá, onde navios já esperam 60 dias em fila — pode paralisar o plantio de uma nação inteira.
Cérebros de Silício em Mãos Alheias
Se a questão dos fertilizantes é a vulnerabilidade do campo, a dependência de chips é a vulnerabilidade do futuro. Mais de 85% dos semicondutores usados no Brasil são importados. Em 2025, o país consumiu quase US$ 50 bilhões em dispositivos eletroeletrônicos — e gerou apenas US$ 1 bilhão em receita no setor doméstico de semicondutores, empregando cerca de 2.500 pessoas. E, nessa atividade incipiente, o Brasil opera apenas nas etapas de encapsulamento e teste — as menos estratégicas da cadeia. Design e fabricação de chips? Praticamente zero.
Isso significa que o coração de tudo — dos sistemas de armas das Forças Armadas, da infraestrutura financeira do Pix, da agricultura de precisão que nos tornou campeões em produtividade, dos sistemas de saúde, dos centros de inteligência e dos sistemas de comunicação das forças de segurança — bate com um coração fabricado em Taiwan, na Coreia do Sul, nos Estados Unidos ou na China. Um coração que pode ser desligado por decisão de outro governo.
Em outubro de 2025, uma disputa comercial entre o Ocidente e a China resultou em interrupção temporária no fornecimento de chips para a indústria automotiva global. Foi um aviso. Um teste de estresse não intencional que revelou a fragilidade da cadeia. O relatório “Desafios de Inteligência 2026” da própria ABIN — a Agência Brasileira de Inteligência — foi explícito: “a dependência de hardwares estrangeiros e o poder concentrado das big techs desafiam a autonomia do Brasil.”
Há ainda uma dependência silenciosa que quase ninguém menciona: o GPS. O Sistema de Posicionamento Global é controlado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O Pix — que processa mais de 3 bilhões de transações mensais — sincroniza via protocolo que depende do GPS para coordenação temporal. A agricultura de precisão, onde somos líderes mundiais, depende do GPS para otimização de plantio e colheita. O rastreamento de cargas em um país continental depende do GPS. Se Washington decidir degradar o sinal ou restringi-lo em determinada região — como já fez historicamente em zonas de conflito —, o Brasil entra em colapso parcial sem disparar um único tiro.
Governos e empresas brasileiras enviam bilhões de reais anualmente ao exterior pelo uso de plataformas de nuvem — Amazon Web Services, Google Cloud, Microsoft Azure. Setores governamentais estratégicos processam e armazenam dados em servidores físicos situados fora do território nacional, submetidos a jurisdições estrangeiras. A espinha dorsal das redes móveis é montada com hardware importado de Huawei, Ericsson e Nokia. A internet brasileira, em sua maior parte, passa por cabos submarinos com nós de controle situados em território norte-americano — uma realidade que já em 2013 gerou escândalos diplomáticos quando o vazamento das operações da NSA revelou que as comunicações entre Brasília e Buenos Aires passavam por servidores nos Estados Unidos.
O Brasil ocupa a posição de maior consumidor e validador de serviços digitais alheios. Não é um ator nesse tabuleiro — é o mercado que outros disputam.
O Diesel que Importamos com o Petróleo que Exportamos
O Brasil nada em petróleo e importa combustível. Esta frase, dita assim, parece absurdo — e é. O pré-sal é uma das maiores descobertas de hidrocarbonetos do século XXI, uma reserva de óleo leve e de altíssima qualidade depositada sob quilômetros de rocha e sal no fundo do Atlântico, operada com tecnologia de ponta que coloca a Petrobras entre as maiores operadoras de águas profundas do mundo. O Brasil extrai, embarca e exporta esse petróleo precioso em estado bruto — e depois paga para importar o diesel que move seus caminhões, seus tratores, sua cadeia logística continental. Em 2024, aproximadamente 30% do diesel consumido no país veio de fora. A razão é uma contradição estrutural herdada de décadas de omissão industrial: o parque de refino brasileiro foi construído para processar óleo pesado, e o petróleo que agora extraímos é leve. Em vez de adaptar as refinarias ao petróleo que temos, ou construir novas unidades compatíveis com o pré-sal, o Estado brasileiro optou pelo caminho mais curto e mais caro — exportar o bruto e importar o refinado, transferindo ao exterior o valor agregado que deveria ficar aqui. É como plantar trigo e importar farinha.
Mas o capítulo mais vergonhoso dessa história não está na herança do passado remoto — está na destruição deliberada do futuro que tivemos nas mãos e desperdiçamos. A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, é o símbolo mais eloquente dessa tragédia. Concebida originalmente para ser concluída em 2010 com investimento estimado em US$ 2,5 bilhões, a refinaria foi sequestrada pelo esquema do Petrolão — o maior escândalo de corrupção da história da Petrobras, operado sistematicamente durante os governos do PT, que transformaram a empresa estatal em caixa de propina e balcão de negócios de empreiteiras conectadas ao poder. Abreu e Lima custou ao contribuinte brasileiro mais de R$ 50 bilhões — vinte vezes o orçamento original —, ficou décadas em obras, e só entrou em operação parcial após toda a devastação investigativa da Lava Jato. O Petrolão não destruiu apenas dinheiro público. Destruiu a capacidade de refino que o Brasil precisaria ter hoje. Destruiu o tempo que não volta. Destruiu a oportunidade histórica de, no exato momento em que o pré-sal era descoberto e os preços do petróleo estavam altos, construir a infraestrutura que nos tornaria autossuficientes em combustíveis. Não foi incompetência — foi escolha. Uma escolha que o povo brasileiro pagou na bomba de gasolina, no preço do frete, no custo do alimento na prateleira.
A narrativa que diz que o petróleo será substituído em poucas décadas pelas energias renováveis — e que portanto não vale a pena investir em refino — é uma das mais perigosas ilusões estratégicas que circulam nos corredores de Brasília. O Brasil tem capacidade solar invejável, ventos constantes no Nordeste, uma matriz de etanol que é referência mundial, biomassa em abundância, e deve — e precisa — desenvolver todas essas fontes com seriedade e ambição. Mas nenhuma honestidade intelectual permite afirmar que o petróleo deixará de dominar a matriz energética global nas próximas décadas. As projeções mais conservadoras da Agência Internacional de Energia apontam que os hidrocarbonetos continuarão respondendo por mais de 50% da energia primária mundial em 2050. Analistas estratégicos sérios trabalham com a premissa de que o petróleo dominará os mercados por mais de um século ainda, em gradual — e nunca abrupta — transição. Um país que tem as reservas que o Brasil tem, e que não constrói as refinarias compatíveis com o seu próprio petróleo, está deliberadamente empobrecendo as gerações futuras. É urgente e inadiável um programa nacional de construção de refinarias com tecnologia de refino específica para o óleo leve do pré-sal — que pode ser tocado com capital privado, com parcerias internacionais, com concessões bem estruturadas, sem depender exclusivamente de um Estado cronicamente endividado. O que não pode acontecer é o Brasil continuar, por mais uma geração, exportando riqueza bruta e importando o que deveria produzir. Isso não é política energética. É rendição.
III. OS CENÁRIOS QUE O SILÊNCIO PREPARA
Analisar o presente sem projetar o futuro é apenas jornalismo. A inteligência estratégica exige ir além — exige construir os cenários plausíveis e extrair deles as consequências antes que elas se imponham pela força dos fatos.
Cenário I — A Crise dos Insumos: Uma escalada no conflito do Oriente Médio, envolvendo o Irã, interrompe o fornecimento global de ureia. Simultaneamente, a China mantém as restrições de exportação de fertilizantes que já sinalizou em 2026. A Rússia usa o momento para pressionar Brasília em alguma votação no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil se vê diante de uma escolha entre o princípio e a colheita. A safra 2027 começa com preços de insumos 40% acima da média. A inflação de alimentos dispara. A classe mais pobre — que já gasta 30% da renda com alimentação — é a primeira atingida. Isso não é ficção científica. É o cenário que analistas do Insper Agro Global e da Gazeta do Povo já mapearam como “altamente plausível”.
Cenário II — A Pressão dos Chips: Uma nova rodada de guerra comercial entre Estados Unidos e China resulta em controles de exportação que incluem semicondutores para países que mantêm relações comerciais com Pequim acima de determinado limiar. O Brasil — que importa chips do Ocidente e vende commodities à China — fica no meio do fogo cruzado. Sistemas industriais param. A defesa cibernética — que já depende de hardware estrangeiro, conforme alerta da ABIN — fica comprometida. O Comando de Defesa Cibernética não tem como repor equipamentos em tempo hábil. A infraestrutura financeira vacila.
Cenário III — A Ruptura Digital: Um ator estatal hostil — ou um grupo de crime organizado transnacional com capacidade de guerra cibernética, como o PCC em sua fase de expansão internacional — ataca a infraestrutura de nuvem que hospeda sistemas governamentais brasileiros em servidores estrangeiros. A jurisdição dificulta a resposta. Os dados estão fora do alcance imediato do Estado brasileiro. A soberania digital se revela uma ilusão operacional no momento exato em que seria mais necessária.
Cenário IV — A Estagnação Estratégica: O mais provável de todos, e o mais perigoso justamente porque é silencioso. O Brasil continua construindo submarinos com atraso, caças em ritmo lento, chips com metas de duplicar de 1% para 2% até 2033 — enquanto o mundo se move em saltos de 10% ao ano. O país chega a 2035 com uma defesa modernizada, mas ainda dependente das mesmas cadeias críticas de hoje. A janela de oportunidade — aberta pelo peso estratégico do pré-sal, pela posição geográfica privilegiada, pelo tamanho do mercado interno — se fecha por falta de decisão política sustentada.
IV. O QUE A NAÇÃO DEVE EXIGIR
A soberania não é um estado de natureza — é uma conquista permanente, exigida a cada geração, renovada a cada decisão estratégica tomada ou omitida. E aqui chegamos ao ponto onde a análise deixa de ser apenas técnica e se torna um ato de responsabilidade cívica.
O Brasil precisa de uma política nacional de fertilizantes que não se curve às pressões de curto prazo do agronegócio importador. Precisamos explorar as reservas de potássio do Amazonas — que existem e que têm sido objeto de estudos desde os anos 1970 sem que uma decisão política definitiva tenha sido tomada. Precisamos expandir a produção doméstica de ureia via gás natural do pré-sal, integrando verticalmente duas das maiores riquezas nacionais. Precisamos de tarifas estratégicas, de reservas de estoques reguladores, de diplomacia agressiva para diversificar fornecedores — Canadá, Marrocos, Cazaquistão — reduzindo a dependência dos dois fornecedores que hoje concentram mais da metade do que plantamos.
O Brasil precisa de uma política de semicondutores com dentes. A meta de ir de 1% para 2% da cadeia global até 2033 é louvável como intenção — e risível como ambição para uma nação do nosso porte. Taiwan tem 23 milhões de habitantes e domina 60% da produção mundial de chips avançados. A Coreia do Sul tem 52 milhões de habitantes e é potência semicondutora global. O Brasil tem 215 milhões de habitantes, um mercado consumidor de US$ 50 bilhões ao ano em eletrônicos, um sistema universitário de pesquisa capaz, recursos do FNDCT e da Finep — e produz quase nada nessa cadeia. Isso não é destino — é escolha.
A questão do refino de petróleo é uma chaga que sangra desde a decisão política de desconstruir o parque refinador da Petrobras durante os anos de governo PT entre 2003 e 2016, quando a empresa foi sequestrada para servir a interesses que não eram os do povo brasileiro. A solução exige a retomada de uma política industrial de downstream com metas claras, investimento privado desregulado e, sobretudo, a coragem de dizer que vender petróleo bruto para importar diesel refinado é uma capitulação econômica que nenhuma nação com pretensão de soberania pode se dar ao luxo de sustentar.
A soberania digital exige que o Estado brasileiro exija — por lei, por regulação, por contrato — que dados governamentais sensíveis sejam processados e armazenados em território nacional. Exige investimento na BR-Fab e na IBQuântica como prioridades de Estado, não de governo. Exige que o Brasil participe ativamente do desenvolvimento do padrão 6G — o Projeto Brasil 6G conduzido pela RNP e pelo INATEL é um passo na direção certa, mas precisará de recursos e proteção política que hoje não tem.
V. UMA SINFONIA INCOMPLETA
Existe um momento em toda grande nação em que ela se vê diante do espelho sem a misericórdia das ilusões — e precisa escolher entre o que é e o que poderia ser. O Brasil chegou a esse momento. Não chegou em derrota. Chegou com caças riscando o céu, com um submarino nuclear tomando forma nas docas de Itaguaí, com o maior avião militar da sua história pousando em aeroportos europeus sob aplausos de potências que levaram séculos para construir o que nós estamos construindo em décadas. Há força aqui. Há talento. Há engenharia. Há bravura fardada que nenhuma estatística consegue dimensionar completamente. O primeiro acorde dessa sinfonia nacional soa com convicção — e seria desonesto negar isso.
Mas logo após esse acorde forte, algo muda. Uma tensão se instala. O mesmo país que projeta submarinos importa o adubo que alimenta o mundo. O mesmo país que fabrica caças de quinta geração não produz os chips que os fazem voar. O mesmo Estado que monitora 16.000 quilômetros de fronteira com sensores de última geração armazena seus segredos mais sensíveis em servidores situados em jurisdições estrangeiras. A China e a Rússia seguram, juntas, mais da metade do que o Brasil planta. O Pentágono calibra os tratores do Mato Grosso via GPS. Seattle guarda o que Brasília pensa. Esta é a dissonância que ninguém quer ouvir — e que por isso mesmo cresce, acumula tensão, e um dia se resolve não em harmonia, mas em ruptura. Nações que ignoram suas vulnerabilidades estruturais não as eliminam. Apenas transferem a fatura para uma geração que não teve voz na decisão.
E então vem o que separa os países que duram dos que apenas existem: a capacidade de olhar para essa dissonância sem desespero, sem negação, e sem a preguiça intelectual de quem empurra o problema para o mandato seguinte. O Brasil possui o que nenhum capital do mundo pode simplesmente comprar no mercado: o maior território contíguo tropical do planeta, a maior reserva de água doce da Terra, petróleo de qualidade excepcional em profundidades que desafiam a engenharia mundial, uma matriz energética que é inveja de nações industrializadas, biodiversidade que ainda não compreendemos por completo, e um povo que sobreviveu a tudo — a colônia, à escravidão, à ditadura, à hiperinflação, à corrupção sistêmica — e que ainda assim acorda, trabalha, constrói e acredita. O que nos falta não cabe em nenhuma prateleira de importação. O que nos falta é a decisão política de tratar a soberania como razão de Estado permanente — não como discurso de posse, não como promessa de campanha, não como adorno retórico em pronunciamento de Sete de Setembro.
A história não distribui segundas chances com generosidade. As janelas de oportunidade se abrem, ficam abertas por tempo determinado, e se fecham — às vezes para sempre, às vezes por gerações inteiras. O Brasil está, neste exato momento, diante de uma janela que o pré-sal abriu, que a posição geopolítica sustenta, que as Forças Armadas guardam, e que a inteligência nacional tem capacidade de atravessar. Fechar essa janela por omissão, por miopia ideológica, por corrupção ou por simples covardia de decidir seria um crime contra os que vieram antes e construíram este país com sangue e trabalho — e contra os que ainda virão, sem ter pedido para nascer num país que desperdiçou o que Deus lhe deu. Não há destino manifesto para nações. Há escolha. Há vontade. Há o momento em que um povo decide, de uma vez, que não nasceu para ser mercado de outros — mas para ser, ele mesmo, uma civilização que o mundo reconhece, respeita e não ousa ignorar. Este é o Brasil que está ao nosso alcance. A única pergunta que importa é se teremos a grandeza de merecê-lo.
Francisco Carneiro Júnior
Texto elaborado após a Aula Magna de Geopolítica e Oceanopolítica do CMG Leonardo Mattos na abertura do C-EEM 2006 / EGN - Marinha do Brasil
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Caríssimo Francisco, leitura excelente e necessária. Chego ao seu texto vindo de um ensaio que escrevi em agosto de 2025 sobre exatamente esse nervo exposto — "Soberania, Dependência e Escolhas" (https://mbalencastro.substack.com/p/soberania-dependencia-e-escolhas) — e foi quase desconfortável ver quantos pontos de contato existem entre as duas análises.
Convergimos no essencial: a soberania que o discurso oficial proclama esbarra numa arquitetura de dependência que não controlamos. Você cita o GPS do Departamento de Defesa americano calibrando os tratores do Mato Grosso e sincronizando o PIX; eu chamei o GPS de "sistema nervoso americano" pela mesma razão. Você aponta os dados estratégicos em servidores de Seattle; eu detalhei como o CLOUD Act faz a jurisdição acompanhar a sede da empresa, não o servidor — de modo que ter data center em solo nacional é ilusão de soberania. E a espinha dorsal de cabos submarinos com nós nos EUA aparece nos dois trabalhos como a artéria que ninguém lembra que pode ser cortada.
Mas o que mais me marcou foi a tese moral que sustenta o seu texto e que também é o coração do meu: a dependência brasileira não nasceu de malevolência estrangeira, nasceu de escolhas nossas — adiadas, terceirizadas, disfarçadas em retórica. "Não há destino manifesto para nações. Há escolha." Assino embaixo.
Acho que nossos ensaios se complementam mais do que se repetem. Você abre o flanco que eu não explorei — o escudo militar real (PROSUB, Gripen, C-390, SISFRON), a sangria dos fertilizantes russos e chineses, e a tragédia do refino que o Petrolão sequestrou. Eu, por outro lado, fui fundo na camada financeira que dá o tom geopolítico: o dólar como infraestrutura, o SWIFT como interruptor (Irã em 2012, Rússia em 2022) e o OFAC/Magnitsky transformando sanções pessoais em choque de governança. Juntos, militar + financeiro + tecnológico, o quadro da "ilusão" fica completo.
Onde talvez nossos diagnósticos tensionem é na leitura política do presente: meu texto é mais explícito ao responsabilizar o atual regime por acionar essas alavancas ao confrontar quem controla os interruptores. Mas a conclusão é a mesma que você cravou: a conta sempre chega, e quem paga é a geração que não teve voz na decisão.
Parabéns pelo ensaio. Vou referenciá-lo. É raro encontrar quem encare o espelho partido sem anestesia.
Muitas perguntas e poucas respostas: 1. Será que teremos mais uma chance? 2. Se ela ocorrer, saberemos aproveitá-la? 3. Continuaremos a perder o trem da História? 4. Até quando? 5. Quantas gerações passarão para que possamos ter o País que desejamos: liberto das amarras do analfabetismo funcional, da pobreza institucional e de tantos desmandos administrativos?