LEGITIMIDADE, FORÇA E VÁCUO DE PODER
Polarização, Narcoterrorismo e a Crise de Soberania no Brasil Contemporâneo
I. A Crise Não É Apenas Política — É de Civilização
Quando um Estado perde a legitimidade, o que resta? Não a legitimidade de um governo específico, não a aprovação de uma figura política — a legitimidade do próprio Estado, daquele contrato primordial pelo qual homens e mulheres concordam em abrir mão de parte de sua liberdade em troca de segurança, justiça e previsibilidade. Quando esse contrato se rompe, o vácuo resultante não é um espaço de liberdade. É um espaço de guerra.
Desde junho de 2013 — data que funciona como sismógrafo de fraturas mais antigas — o Brasil tem exibido os sintomas de um Estado que perdeu, em graus variados e em arenas distintas, aquilo que Max Weber definiu com precisão cirúrgica como o fundamento da autoridade política: o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um território determinado. A palavra-chave, sempre esquecida nos debates rasos da mídia, é legítimo. Não basta deter a capacidade coercitiva. É necessário que os governados — todos eles, das periferias às salas do poder — reconheçam tal coerção como justificada, como derivada de regras que valem para todos com igual rigor.
Quando essa crença se dissolve, o Estado não desaparece de imediato. Ele se fragmenta. Mantém a fachada institucional — ministérios, tribunais, fardas, selos — enquanto, por baixo, a substância que dá sentido à fachada apodrece silenciosamente. E é nesse intervalo entre a aparência e a realidade que prosperam os messianismos políticos, as narrativas de redenção, as facções criminosas capazes de governar bairros inteiros com mais eficiência e mais aceitação popular do que o poder público jamais demonstrou. O que está em jogo no Brasil de 2026 não é apenas quem ocupa a cadeira da Presidência. É se haverá Estado suficiente para sustentar qualquer cadeira.
O vácuo de legitimidade não permanece vazio. Ele é preenchido — pela fé, pela força ou pelo medo. Às vezes, pelos três ao mesmo tempo.
A crise que atravessamos tem ao menos três faces simultâneas, e seu diagnóstico correto exige olhar as três ao mesmo tempo: a erosão da legitimidade legal-racional das instituições republicanas; a guerra entre dois messianismos políticos que transformaram o debate público em batalha espiritual; e a insurgência territorial de organizações narcoterroristas que constroem soberania paralela nos espaços que o Estado abandonou. Esses três fenômenos não são acidentais. Não são independentes entre si. Alimentam-se mutuamente num ciclo que se auto-sustenta enquanto não for compreendido em sua totalidade.
Este ensaio propõe essa compreensão. Não como exercício acadêmico descolado da realidade — mas como mapa de um campo de batalha que precisa ser reconhecido antes de ser enfrentado.
II. Weber e o Brasil: Quando o Contrato Se Parte
O fundamento esquecido da autoridade
Em Economia e Sociedade, Weber distingue três fontes puras de dominação legítima — e é importante usar a palavra dominação sem eufemismos, porque é disso que se trata o exercício do poder político. A dominação tradicional ancora-se na crença na santidade das ordens transmitidas pela tradição imemorial; quem manda, manda porque sempre foi assim. A dominação legal-racional apoia-se na crença na legalidade de regras estatuídas e nos direitos de quem, em virtude dessas regras, é designado para exercer a autoridade; quem manda, manda porque as normas assim prescrevem. A dominação carismática funda-se na devoção à pessoa do líder e a seus dotes extraordinários; quem manda, manda porque é diferente dos demais — superior, ungido, destinado.
Na prática histórica, sistemas políticos raramente se sustentam sobre fonte única. A estabilidade emerge da combinação adequada entre as três, e a fragilidade se instala não necessariamente pela ausência de alguma delas, mas pela corrosão simultânea de todas. É exatamente isso que o Brasil viveu na última década com uma intensidade que não encontra paralelo em sua história republicana. A legitimidade legal-racional das instituições — STF, TSE, Ministério Público, Polícia Federal, Congresso Nacional — foi corroída por escândalos de corrupção sistêmica revelados pela Operação Lava Jato, por decisões judiciais percebidas por metades antagônicas do País como expressões de parcialidade política, e por um Congresso que atua com transparência flagrante de que seus membros representam a si mesmos antes de representar o eleitor.
A legitimidade tradicional do arranjo republicano de 1988 foi desafiada frontalmente por movimentos que questionavam não apenas governos específicos, mas a própria arquitetura constitucional — uns clamando por uma nova Constituinte de esquerda, outros reivindicando intervenção militar ou rompimento com o sistema eleitoral. E o que poderia substituir toda essa erosão — uma renovação genuína da crença racional nas instituições — não se consolidou, cedendo lugar ao protagonismo de figuras carismáticas que mobilizam lealdades de natureza pré-política, visceral, impermeável à evidência.
A crise não é de governabilidade. É de legitimidade. E legitimidade não se decreta — se constrói, lentamente, pela consistência entre o discurso e a prática, entre a norma escrita e a norma aplicada.
Os números são brutais. O Latinobarômetro documentou, ao longo dos anos 2010, queda consistente e progressiva na confiança dos brasileiros nas instituições. Em 2018, apenas 6% declaravam confiar nos partidos políticos. Menos de 30% confiavam no Congresso. O STF, que desfrutava de aprovação superior a 50% no início dos anos 2000, viu seus índices oscilar dramaticamente na mesma proporção em que suas decisões eram percebidas por cada campo como politicamente motivadas. E aqui está o dado mais revelador: esse número não cai porque as pessoas discordam de uma decisão específica — isso é saudável num sistema democrático. O número cai quando a população não mais acredita que as regras são aplicadas de forma previsível e impessoal. Quando o sistema jurídico deixa de parecer sistema e começa a parecer campo de batalha com toga.
O acordo quebrado e a crise orgânica
Antonio Gramsci, escrevendo de uma cela fascista na Itália dos anos 1930, produziu uma das distinções mais lúcidas da ciência política: dominação, exercida pela coerção, é diferente de hegemonia, exercida pelo consenso. Uma classe ou bloco de poder que perde a hegemonia pode ainda dominar pela força — mas entra em crise orgânica: a direção intelectual e moral deixa de ser aceita como legítima pela sociedade. O que Gramsci descreveu para a Itália de Mussolini ressoa com clareza incômoda no Brasil de Lula e de Bolsonaro: não houve apenas uma crise de governo, mas uma crise orgânica das classes dirigentes, expressa na incapacidade de qualquer bloco social construir hegemonia duradoura, de liderar o País inteiro para algum lugar compartilhado.
O Brasil que chega a 2026 carrega essa crise orgânica agravada. A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro como réu pelo STF — aceita em março de 2025 por unanimidade da Primeira Turma — não encerrou a disputa: a inflamou. Para metade do País, foi a vitória da democracia. Para a outra metade, foi a confirmação de que o sistema judicial funciona como instrumento de perseguição política. A designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo Trump, em maio de 2026, adicionou uma camada geopolítica explosiva: o governo Lula resiste à classificação por temor de que ela abra brechas para ação unilateral americana em território brasileiro, enquanto governadores como Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro e Romeu Zema a abraçaram como ferramenta política interna. Cada evento que deveria unir o País em torno de uma resposta comum transforma-se em mais um campo de batalha entre as duas tribos.
Esse é o retrato de um Estado que perdeu não apenas a hegemonia, mas a capacidade de produzir narrativa compartilhada sobre si mesmo. Um Estado que não consegue mais contar uma história sobre o que é o Brasil e para onde vai — e que, no vácuo dessa narrativa ausente, deixa que outros contem histórias mais simples, mais fortes e mais perigosas.
III. A Guerra dos Messianismos
Carisma, crença e a suspensão do julgamento
A dominação carismática é, para Weber, estruturalmente instável. Ela depende da demonstração contínua de dotes extraordinários — militares, proféticos, tribunícios — e tende ao colapso quando o líder falha ou quando a crise que o gerou se normaliza. Mas antes do colapso, ela é a fonte de autoridade mais poderosa que existe: mobiliza afetos, suspende o julgamento crítico, cria comunidades de crentes que constroem identidade em torno da figura carismática com uma intensidade que nenhuma fidelidade racional jamais alcançaria.
No Brasil, tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Jair Bolsonaro constroem sua autoridade essencialmente sobre dominação carismática. Não são, em primeiro lugar, líderes de programas ou de instituições — são líderes de movimentos organizados em torno de sua pessoa. Lula mobiliza o mito da ascensão do trabalhador pobre, da derrota da ditadura, da redenção dos excluídos, de um Brasil que finalmente chegou para quem nunca havia chegado. Bolsonaro mobiliza o mito do militar outsider que diz o que nenhum político convencional teria coragem de dizer, do pai de família que resiste ao avanço do que chama de ideologia, do representante de um Brasil silenciado que finalmente encontrou voz. São dois mitos poderosos, genuinamente enraizados em experiências reais de grupos populacionais específicos — e é exatamente por isso que são tão resistentes à razão.
Pierre Bourdieu acrescenta uma dimensão que transforma o diagnóstico weberiano em mapa operacional: o campo político tem lógica própria, com regras, capitais específicos e mecanismos de reprodução. A polarização não é apenas fenômeno psicossocial de tribos em conflito — é estrutura de campo na qual dois polos se constituem mutuamente, cada um definindo sua identidade em oposição ao outro. Nessa configuração, qualquer aproximação, qualquer moderação, qualquer disposição de reconhecer razão no adversário é percebida como traição pelos militantes mais engajados de cada polo. Isso torna a desescalada politicamente custosa. Estruturalmente improvável. Quase suicida.
A religião política e o messias instrumentalizado
Há um mecanismo ainda mais profundo operando por baixo da polarização, e ele remonta à estrutura psíquica do fenômeno messiânico. A ciência política sabe há séculos — de Maquiavel a Eric Voegelin — que quando as sociedades perdem a fé nas instituições, a energia religiosa não desaparece: ela se desloca para o campo político. O que era crença em Deus torna-se crença no líder. O que era esperança no além torna-se esperança num candidato. O que eram hereges e inimigos do povo de Deus tornam-se adversários políticos ontologicamente malvados, contra os quais não se negocia — derrota-se ou é derrotado.
No bolsonarismo, essa instrumentalização religiosa foi explícita e sistemática: a eleição enquadrada como batalha espiritual entre o bem e o mal, o candidato como ungido divino, o voto como ato de fé, o adversário como encarnação de forças demoníacas que ameaçam a família, a pátria e a fé. Não foi fenômeno espontâneo: resultou de uma articulação deliberada entre liderança política carismática e lideranças evangélicas com base popular massiva, construída ao longo de anos com consistência doutrinária e capilaridade territorial invejável. O petismo opera com legitimidade ideológica de natureza secular, mas igualmente intensa e igualmente impermeável: a narrativa da libertação dos pobres, do combate à elite exploradora, do Brasil que ainda não foi feito — também com seus mártires, seus demônios ontológicos e sua escatologia de redenção histórica.
São dois utopismos em colisão. Duas versões incompatíveis de uma promessa de salvação nacional. O resultado é que o debate político deixa de ser sobre políticas públicas — sobre o que cada proposta concretamente fará — e se torna sobre identidade e pertencimento tribal: não se discute o que você defende, mas o que seu voto diz sobre quem você é. Nesse ambiente, a razão é suspeita e a coerência é fraqueza.
Dois utopismos em colisão. Dois Brasil que coexistem no mesmo território e não mais conseguem se enxergar como compatriotas. Isso não é polarização política. É pré-guerra civil fria.
IV. O Estado Paralelo — Crime Organizado Como Governança
Tilly e a lógica da proteção coercitiva
Se a polarização é a face visível da crise de legitimidade no plano político-eleitoral, o narcoterrorismo é sua face mais violenta e mais concreta no plano territorial. Para compreendê-lo adequadamente é necessário primeiro quebrar a moldura cognitiva que trata essas organizações exclusivamente como agentes criminais que operam à margem do Estado. Charles Tilly, em sua análise comparativa dos processos de formação estatal, demonstrou algo que continua sendo perturbador para os bem-pensantes: a diferença entre governos legítimos e organizações criminosas reside menos na natureza das atividades que exercem do que no reconhecimento social que recebem por exercê-las. O Estado moderno emergiu historicamente de organizações que exerciam proteção coercitiva — que cobravam impostos sob ameaça, que eliminavam concorrentes, que monopolizavam violência — e que gradualmente conquistaram o reconhecimento desse exercício como legítimo.
O Primeiro Comando da Capital, fundado em 1993 nas masmorras do sistema penitenciário paulista por homens que o Estado havia esquecido dentro de celas insalubres, e o Comando Vermelho, com raízes no Rio de Janeiro dos anos 1970, construíram ao longo de décadas estruturas de governança paralela que vão muito além do tráfico de drogas. Pesquisas etnográficas rigorosas documentaram como o PCC desenvolveu um sistema de resolução de conflitos que funciona como tribunal informal, com código normativo próprio, procedimentos padronizados, mecanismos de apelação e uma ideologia coesa articulada em três palavras — paz, justiça e liberdade — deliberadamente escolhidas para replicar os valores republicanos que o Estado falhou em entregar. Reconhecer que o PCC e o CV constroem governança não é absolvê-los — suas vítimas preferenciais são os próprios moradores das periferias que dizem proteger, sua violência é real e devastadora, e seu impacto sobre o desenvolvimento humano e a democracia é mensurável em gerações perdidas. Significa, contudo, que tratá-los apenas como casos de polícia resolve o sintoma sem tocar a doença. E doenças não tratadas matam.
As três fontes de legitimidade do narcoterror
Aplicando a tipologia weberiana às organizações narcoterroristas brasileiras, identificamos ao menos três fontes de legitimidade operando simultaneamente, em combinação que seria invejável para qualquer partido político convencional.
A primeira é a legitimidade marcial: nas favelas e periferias onde o Estado se faz presente apenas de forma esporádica e frequentemente violenta, quem efetivamente controla o território e garante a segurança cotidiana é o tráfico. Isso cria uma relação de dependência que não é mero medo. É também reconhecimento funcional de uma autoridade que entrega o que o Estado não entrega: a capacidade de caminhar na rua sem ser assaltado, de resolver uma briga de vizinhos sem aguardar anos por uma audiência judicial que nunca virá, de saber que as regras do território — por mais brutais que sejam — são previsíveis e aplicadas com consistência. A previsibilidade é um bem público raro. Quem a oferece, governa.
A segunda é a legitimidade prestacional — categoria que Tilly identificou como central nos processos de formação estatal: a capacidade de prover bens e serviços que o Estado não provê. O PCC financia enterros, paga tratamentos médicos, regula preços no comércio local, arbitra conflitos domésticos, provê assistência jurídica gratuita a famílias de presos. O CV, em determinadas comunidades cariocas, operou durante anos sistemas de transporte alternativo, distribuição de botijões de gás e serviços de segurança domiciliar. Isso não é filantropia — é governança com toda a lógica de reciprocidade e controle que o conceito implica. É o Estado substituído por quem percebeu que a substituição era possível.
A terceira fonte — mais recente, mais preocupante e mais complexa de combater — é uma proto-legitimidade ideológica: a construção de narrativas que enquadram a organização como defensora dos pobres contra o Estado opressor. Quando o PCC elege paz, justiça e liberdade como seu slogan, não está sendo ingênuo — está disputando o mesmo terreno simbólico da República. E essa disputa ressoa com intensidade particular entre jovens em contextos de extrema vulnerabilidade, para quem o Estado se manifesta quase exclusivamente na forma de violência policial, ausência de serviços e bloqueio de perspectivas. Para esse jovem, a bandeira da facção não é símbolo de criminalidade — é símbolo de pertencimento, de proteção, de identidade.
A aliança estratégica entre PCC e Comando Vermelho, formalizada segundo relatórios de inteligência em 2025, representa escalada qualitativa nesse cenário. Duas organizações que antes se combatiam por territórios — criando, paradoxalmente, um equilíbrio de terror relativamente estável em certas regiões — passaram a coordenar operações, compartilhar rotas e logística, e potencialmente dividir mercados internacionais. O Brasil que chega às eleições de 2026 tem no crime organizado um ator estatal alternativo com maior penetração territorial em certas regiões do que o próprio governo federal. Esse é um problema de soberania, não apenas de segurança pública. E problemas de soberania não se resolvem apenas com delegacia.
V. O Momento Geopolítico: Quando o Exterior Amplifica o Interior
A crise de legitimidade do Estado brasileiro ocorre num contexto geopolítico que a amplifica e a complica em proporções que a análise puramente doméstica não capta. A decisão do governo Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — em maio de 2026 — não é apenas um evento de política externa americana. É uma intervenção no campo político brasileiro com consequências imprevisíveis para a soberania nacional e para a dinâmica eleitoral que se aproxima.
A geopolítica do crime organizado não respeita fronteiras eleitorais. O PCC opera no Brasil, no Paraguai, na Bolívia, em países africanos e tem vínculos europeus documentados. O Comando Vermelho estende tentáculos pelo Rio, pelo Nordeste e pela Amazônia — região de crescente interesse estratégico para potências externas que percebem no vácuo estatal brasileiro uma oportunidade. A internacionalização do crime organizado brasileiro é, em si, uma forma de vácuo de soberania exportada: quando o Estado não preenche o território com sua presença legítima, outros atores o fazem — e nem sempre são atores amistosos.
Esse é o contexto em que o Brasil vai às urnas em 2026: com instituições desacreditadas, com dois campos políticos que se percebem como ameaças existenciais um ao outro, com uma crise fiscal nos estados que comprime as forças de segurança pública, com o crime organizado mais forte e mais internacionalizado do que nunca, e com um ambiente geopolítico externo que amplifica cada uma dessas fragilidades. É um cenário que exige liderança de estadista — e que, tragicamente, está sendo disputado por messianismo.
VI. O Que Fazer — Prescrições para um Brasil que Não Quer Desaparecer
Uma política de segurança pública fundada na compreensão sociológica adequada do problema terá que operar em três eixos simultâneos e interdependentes. Não há sequência lógica entre eles — cada eixo é condição de eficácia dos outros dois, e a intervenção isolada em qualquer um deles produz resultados marginais e temporários.
Primeiro Eixo: Reconstruir a Legitimidade Legal-Racional
O primeiro e mais fundamental eixo é a reconstrução da legitimidade legal-racional das instituições. Isso exige, antes de tudo, consistência: as regras precisam ser aplicadas de forma previsível e impessoal, independentemente da posição social, da filiação política, da capacidade de contratar advogados caros ou da facilidade de mobilizar apoio midiático. Enquanto o sistema de justiça criminal brasileiro mantiver sua seletividade estrutural — punindo com dureza sistemática os crimes praticados pelos pobres e tratando com indulgência estratégica os crimes praticados pelos poderosos — ele continuará produzindo o combustível ideológico que alimenta tanto a polarização política quanto o recrutamento do crime organizado. A percepção de que a lei tem dono é mais corrosiva para a legitimidade estatal do que qualquer discurso de facção.
Isso requer reforma do sistema penitenciário — que hoje funciona como universidade do crime organizado, onde o PCC recruta, treina e doutrina com mais eficiência do que qualquer instituição pública brasileira —, reforma da inteligência policial, reforma dos mecanismos de accountability das forças de segurança, e, fundamentalmente, reforma da cultura institucional que trata a violação de direitos de populações periféricas como custo operacional aceitável.
Segundo Eixo: Presença Estatal Prestacional
O segundo eixo é a ocupação territorial prestacional nos espaços de soberania disputada. Não se trata de substituir a ação policial — trata-se de preceder e acompanhar qualquer ação policial com investimento real e sustentado em saúde, educação, infraestrutura, geração de renda e presença institucional do Estado em sua face provedora. A lógica é elementar e foi demonstrada empiricamente em contextos de contra-insurgência ao redor do mundo: o Estado compete com o crime organizado pela lealdade de populações que foram sistematicamente marginalizadas. Essa competição não se vence apenas com mais força. Vence-se, fundamentalmente, oferecendo mais do que o adversário oferece — e oferecendo de forma consistente, previsível, respeitosa.
Enquanto o PCC pagar o enterro, financiar o tratamento médico, arbitrar o conflito de vizinhança e o Estado aparecer exclusivamente na forma do carro blindado e da operação policial seguida de ausência total de serviços, a disputa de legitimidade territorial estará perdida antes de começar. Não há quantidade de munição capaz de compensar essa desvantagem estrutural.
Terceiro Eixo: Doutrina, Profissionalismo e Responsabilização
O terceiro eixo é a profissionalização e a reestruturação doutrinária das forças de segurança pública — não como concessão ideológica a críticos do Estado, mas como exigência operacional básica. Operações táticas bem executadas, com inteligência prévia robusta, proporcionalidade rigorosa no uso da força, minimização radical de danos colaterais e responsabilização real para desvios, não são apenas mais eficazes operacionalmente. São condição para que o Estado não destrua, a cada intervenção, o capital de legitimidade que precisaria estar construindo.
A doutrina de operações especiais já incorpora esses princípios : inteligência e proporcionalidade não são fraqueza, são força multiplicada. O desafio é fazer esses princípios descerem da doutrina para a prática cotidiana das corporações estaduais, que respondem pela esmagadora maioria dos confrontos, e que operam frequentemente sem treinamento adequado e sem suporte de inteligência
VII. O Que Resta Quando Cai o Pano
Há um tipo específico de erro que destrói nações: o erro de confundir o sintoma com a doença, de tratar a febre em vez de combater a infecção. O Brasil cometeu esse erro repetidamente ao longo dos últimos dez anos. Tratou a corrupção como problema de policiais e delegados, quando era problema de institucionalidade. Tratou a polarização como problema de redes sociais e fake news, quando era problema de legitimidade. Tratou o crime organizado como problema de calibre insuficiente, quando era problema de soberania ausente. E colheu, em cada caso, a consequência natural de quem diagnóstica mal: o agravamento.
A análise sociológica rigorosa não oferece conforto fácil nem solução rápida. Ela oferece algo mais valioso: clareza. A clareza de que legitimidade é o oxigênio da república, invisível quando presente e letal quando ausente. A clareza de que messianismos não constroem instituições — as substituem temporariamente enquanto as corroem definitivamente. A clareza de que o crime organizado não é anomalia do sistema — é consequência lógica e previsível de um Estado que sistematicamente falhou em ser Estado para quem mais precisava que ele fosse.
O Brasil que vai às urnas em 2026 carrega esse diagnóstico nas entranhas, consciente ou não. Carrega a polarização entre Lula e os Bolsonaro como um peso que todos dizem querer largar, mas que ninguém ainda demonstrou capacidade de largar sem se desintegrar politicamente. Carrega o PCC e o Comando Vermelho como estados dentro do Estado, com sua bandeira, seu código, seu território e sua lealdade — e agora, pela primeira vez, classificados como terroristas por uma potência externa que não pediu licença para intervir na narrativa. Carrega instituições desgastadas por décadas de uso partidário, que precisam de reforma mas que, sem legitimidade prévia, qualquer reforma proposta soará como mais um golpe de interesse.
Essa é uma encruzilhada civilizatória, não apenas eleitoral. As nações que sobrevivem a crises orgânicas desta magnitude — e há exemplos históricos de sucesso e de fracasso em proporções comparáveis — são aquelas que encontram, em algum momento, liderança capaz de ir além do mesianismo: líderes que constroem instituições em vez de se construir sobre ruínas delas, que treinam sucessores em vez de cultivar dependência, que falam à nação inteira em vez de apenas ao seu campo. Não líderes perfeitos — não existem. Líderes suficientemente honestos para dizer que o problema é maior do que qualquer um de nós.
A saída — se existe — está na direção inversa à que tem dominado o debate público: menos messianismo, mais institucionalismo; menos retórica de guerra, mais diagnóstico preciso; mais presença estatal consistente e respeitosa; menos disputa de narrativa, mais construção de realidade compartilhada. É uma agenda politicamente ingrata, porque não produz imagem de impacto para o ciclo de 24 horas, não mobiliza a mesma adrenalina tribale das narrativas de combate ao demônio adversário, não traz a satisfação visceral de ver o inimigo derrotado. Mas é a única que a teoria e a evidência empírica disponíveis sustentam como caminho real.Todo o resto — cada discurso apocalíptico, cada decisão judicial que parece mais arma de campo político do que aplicação impessoal da lei — é variação sobre o mesmo tema: o tema da República que consome a si mesma enquanto simula combater seus inimigos.
O Brasil já foi grande antes. Não porque seus líderes foram santos. Mas porque, em determinados momentos, as instituições foram maiores do que os homens que as habitavam. Esse é o tamanho do desafio — e esse é o único tamanho de resposta que merece ser chamado de solução.
Uma nação não morre de uma vez. Morre em parcelas — cada vez que a legitimidade cede um pouco mais de espaço para a força, a fé ou o medo. A recuperação também se faz em parcelas: uma instituição honrada aqui, uma decisão justa ali, um juiz que julga sem olhar para a plateia,sem garantismo (e pensando na vítima) O Brasil que precisa ser construído não nasce de um herói. Nasce do acúmulo silencioso de pessoas que decidiram ser República.
Que esse acúmulo chegue antes que o vácuo seja definitivo.
Francisco Carneiro Júnior
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A polarização veio como resposta a perda da legitimidade do grupo que meticulosamente, ao longo de quase meio século, se infiltrou no poder. Ela se intensificou quando essa massa que entendeu o que estava em jogo era a sobrevivência das gerações futuras. Bolsonaro dá voz a essa população que já não queria mais um projeto de poder que estava lhe tirando tudo e não correspondia com os seus valores morais. Contudo, o poder, como já dito aqui em outros ensaios, é muito mais que uma pessoa, e assim , a partir do Estado infiltrado, veio o contra-ataque ao Povo, potencializando a disputa. O grupo que sequestrou as instituições , usou, e usa, as facções criminosas como o braço armado para desestabilizar ainda mais a sociedade. Lula é fruto de algo engendrado por pensadores estrangeiros e aplicado aqui. O propósito é escravidão moderna, com todos os ingredientes revolucionários. Bolsonaro foi o político que se lançou como o líder de um Povo que havia percebido que o Estado, tal qual desenhado, não o atendia mais. O meu maior medo e tristeza é pensar que o Brasil pode ser fragmentado por puro egoísmo de brasileiros políticos, traidores da Pátria, que não se importam em ver 220 milhões de pessoas passarem por todo tipo de sofrimento caso venha a se instaurar uma guerra civil em nosso território. Resta-nos pouco tempo.