O PROFETA DA DESTRUIÇÃO
Como reconhecer e enfrentar o mal no Brasil de hoje
“Girando e girando a voltas crescentes
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.”
Trecho do poema “A Segunda Vinda” , de William Butler Yeats (1920)
Um posto de gasolina perdido numa estrada do Texas. Um homem comum atrás do balcão, cuidando do cotidiano banal de quem nunca imaginou que aquele dia seria diferente dos outros. Do outro lado, um desconhecido de voz baixa e olhos que não pedem nada — e não perdoam nada — manda que ele aposte a própria vida numa moeda de poucos centavos. Sem ódio. Sem vontade nenhuma, na verdade. Só a execução fria de algo que o homem da moeda chama, sem ironia, de destino. A cena é de Cormac McCarthy, em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, e talvez seja o retrato mais preciso que a literatura já produziu sobre o que é, de fato, olhar o mal nos olhos. Esquece o vilão de cinema, o sorriso sádico, o monólogo explicando os motivos. Esse mal aqui já venceu antes do disparo. Por dentro.
Esse homem da moeda tem nome: Anton Chigurh. O título original do romance que o criou, “No Country for Old Men”, vem de um poema escrito em 1920 por William Butler Yeats, no rescaldo de uma guerra que enterrou de vez a ilusão europeia de progresso linear. Yeats enxergou ali, antes de quase todo mundo, o falcão que se afasta tanto do falcoeiro que já não reconhece o apito; o centro que não aguenta mais o peso do que deveria sustentar; a anarquia se derramando como maré de sangue sobre o mundo, enquanto os homens de bem perdiam a convicção bem na hora em que os piores homens a multiplicavam. Chigurh é essa profecia andando por aí, sem rosto fixo, sem lugar de origem, sem passado que se possa checar, sem motivação política, ideológica ou financeira capaz de encaixá-lo nas categorias que usamos para domar o mal. McCarthy ainda faz uma piada cruel com isso: o som do ar comprimido de sua pistola de abate de gado lembra a palavra grega pneuma, espírito; e o número 117, que se repete o livro inteiro sempre nos momentos mais próximos da morte, remete ao Apocalipse 1:17 — o instante em que João cai como morto diante do Cristo glorioso. Só que na cena bíblica quem ergue o homem caído é a misericórdia. Na cena de Chigurh, quem segue de pé é o algoz.
Quem testemunha essa maré é o xerife Ed Tom Bell — e aqui está o detalhe que interessa a qualquer brasileiro lendo isso: Bell não é covarde. Pelo contrário: é homem de honra, treinado, com décadas de estrada enfrentando bandido, que nunca recuou diante de uma arma. Só que diante de Chigurh ele recua. E não é do tiro que ele tem medo. É da suspeita, cada vez mais concreta, de que vencer aquele mal específico significaria deixar de ser quem ele é — igualar-se, em frieza e cálculo, ao próprio mal que pretende destruir. Bell prefere entregar o distintivo a se tornar irreconhecível no espelho. A conversa final com o tio Ellis, sobre o silêncio de Deus, e aquela frase hesitante que ele solta sobre Chigurh — “eu sei que ele é homem” — não chegam a ser afirmações. São a confissão disfarçada de uma dúvida bem maior: a de que talvez não exista mais centro nenhum capaz de sustentar o mundo. Só a lembrança de que um dia existiu.
A crítica literária não deixa por menos: aproxima Chigurh de outra figura sinistra de McCarthy, o juiz Holden, de “Meridiano de Sangue”. Os dois parecem talhados pelo mesmo molde gnóstico, o do demiurgo que se autoproclama senhor absoluto de um mundo que, segundo a própria tradição gnóstica, nunca devia ter sido seu. A diferença é de estilo, não de substância. Holden grita seu apetite por soberania sobre a Terra. Chigurh prefere a humildade sinistra de quem se apresenta como mero instrumento de um destino que ele mesmo decide a cada moeda lançada — um grita, o outro sussurra. E é por isso, talvez, que tanto brasileiro hoje reconhece essas duas máscaras em gente que ocupa tribuna, gabinete, toga e microfone todos os dias: uns berrando soberania absoluta sobre a vida pública, outros sussurrando que só cumprem o destino institucional que lhes foi confiado.
Para entender por que essas figuras nos incomodam de um jeito tão particular, vale a pena recorrer à obra do analista junguiano e sacerdote episcopal John A. Sanford, no livro “Mal — O Lado Sombrio da Realidade”. O diagnóstico de Sanford é incômodo: preferimos acreditar que os males do nosso tempo nascem de arranjos políticos, econômicos ou educacionais, corrigíveis por decreto — não de algo que mora, de fato, na alma humana. Tratamos o mal como ameaça externa, a ser exilada, nunca como sombra interna, a ser compreendida. E essa negação, segundo Sanford, é o que produz o mecanismo mais perigoso da psique coletiva: ao recusar reconhecer a própria sombra, o ser humano — e a sociedade inteira, por extensão — empurra para fora de si tudo o que não suporta admitir dentro, fabricando vilão atrás de vilão para depositar ali o que falta coragem de enfrentar em casa.
Sanford percorre três camadas teológicas para montar essa arqueologia do mal. A mitológica, que separa, de um jeito confortável, um deus bom de uma força má — simétricos, opostos. A veterotestamentária, que precisa encaixar a existência do mal dentro de um Deus único e onipotente, sob risco de comprometer ou sua bondade, ou seu poder. E a neotestamentária, em que o dualismo volta disfarçado de monoteísmo. É nesse terreno que ele contrapõe Jesus e Paulo: em Jesus, identifica a aceitação integrada daquilo que a psicologia chamaria de sombra dentro da própria pessoa; em Paulo, a origem de uma negação histórica da dualidade humana dentro da própria Igreja — uma fantasia de virtude sem sombra, de luz que não admite contraponto. Desse mesmo solo teológico, séculos depois, brota o demiurgo gnóstico que Chigurh encarna: um poder que se apresenta como absolutamente bom, mas que, ao negar a própria sombra, devolve-a ao mundo na forma de um mal igualmente absoluto. Por isso Sanford vai direto à história do Dr. Jekyll e Mr. Hyde: Chigurh é, no fundo, um Hyde sem Jekyll — a sombra solta de qualquer ego civilizado capaz de hospedá-la, caminhando pelo Texas com a mesma naturalidade com que Hyde caminhava por Londres.
“Se vós vos calardes, até as pedras clamarão.” Lucas 19:40
A boa notícia — porque existe uma — é que Sanford não condena a sombra à perdição eterna. Para ele, a sombra não é o mal em si: é energia psíquica neutra, perigosa só quando reprimida ou negada, redimível quando reconhecida e integrada. Por isso encontra, na crucificação e na ressurreição cristãs, uma afirmação de inteireza compatível com o processo de individuação — a luz só fica real quando atravessa a própria escuridão, nunca quando a evita. Essa travessia, Bell se recusa a fazer. E não é fraqueza: é lucidez quase teológica sobre o preço da integração. Para enfrentar uma sombra tão absoluta quanto a de Chigurh, ele teria que hospedar dentro de si uma parcela equivalente dela. E prefere a derrota a essa comunhão.
O Brasil, hoje, evita a mesma travessia. Porque o mal, por aqui, não usa capa nem chifre: usa terno, toga, microfone, distintivo ou, vez ou outra, uma pistola comprada com dinheiro do tráfico. Tem, pelo menos, cinco rostos. Nenhum deles pede licença para existir.
MALES BRASILEIROS
O mal governante não precisa de nome para ser reconhecido. Precisa só de um padrão que se repete: administrar a fragilidade estratégica do país com a mesma displicência de quem trata um item de agenda, não uma ameaça existencial. Ocupar-se de geometria política, de narrativa internacional, de sobrevivência eleitoral — enquanto a engenharia da soberania nacional segue sem prioridade real. Todo governante que trata defesa nacional, segurança energética e autonomia tecnológica como capítulo secundário do mandato, em vez de dever inegociável de Estado, está, na prática, terceirizando o futuro do país a quem chegar primeiro. Não importa o nome na cadeira. O mal governante é o cargo tratado como propriedade pessoal, nunca como custódia temporária de algo que pertence à Nação.
Há um mal que julga e, por julgar, se acha acima de qualquer julgamento. É o mal de quem veste toga e confunde o papel de guardião da Constituição com vocação de tutor moral da sociedade — decidindo, sozinho, o que milhões de brasileiros podem dizer, ver ou compartilhar. Isso não é retórica: o Brasil viu, em tempo real, em 2024, uma rede social inteira ser bloqueada no país por decisão de um único ministro do Supremo, Alexandre de Moraes. O episódio correu o mundo e, fora das bolhas que aplaudem qualquer coisa vinda do Judiciário, é lido lá fora como sintoma de um Poder que perdeu a noção dos próprios limites constitucionais. Esse é o mal judicial: a sombra de Chigurh de toga e martelo, convencida de que cumpre destino quando, na prática, só está executando preferência. A diferença entre um Judiciário forte e um Judiciário sem freio é a mesma entre o falcoeiro que ainda comanda o falcão e o falcão que já não escuta ninguém. Um Poder acostumado a decidir tudo sozinho, sem contraponto de verdade, deixa de ser garantia da Constituição. Passa a ser sua principal ameaça — vestida, aliás, com as cores da legalidade.
Há um mal que negocia, que troca, que finge servir ao povo enquanto serve só a si mesmo — e sobrevive porque aprendeu, há décadas, a normalizar o anormal. É o mal da classe política que trata escândalo como rotina, impunidade como direito adquirido, erário como butim de guerra entre legendas. Quase nunca aparece como vilão de filme. Aparece como acordo de bastidor, emenda discreta, indicação de compadre, silêncio cúmplice diante do colega que errou. É o mal mais espalhado justamente por ser o mais banal — e a banalidade, como o século vinte ensinou da pior forma possível, é sempre o disfarce favorito do mal organizado.
Há um mal coletivo, que não mora numa pessoa só, mas numa mentalidade inteira — e esse, para Sanford, é o mais perigoso de todos, porque viabiliza todos os outros. É o mal de uma sociedade que se recusa a olhar a própria sombra, que evita encarar os próprios defeitos e erros, e prefere fabricar bode expiatório: o conservador como inimigo da democracia, o policial como suspeito permanente, o empresário como vilão automático, o militar como ameaça institucional. A gente projeta no adversário político tudo o que não tem coragem de admitir em si mesmo, e chama isso de engajamento. Sanford é claro nesse ponto: a sombra não desaparece por ser projetada. Só muda de endereço — e continua operando, agora disfarçada de virtude coletiva, do mesmo jeito que Chigurh se disfarça de instrumento do destino.
Tem ainda um mal que não precisa de organização, sigla ou hierarquia pra existir: o mal humano puro, a psicopatia que mata sem culpa e sem precisar de explicação — a mesma frieza que McCarthy deu a Chigurh, e que a criminologia encontra, todo dia, em rosto comum por trás de crime hediondo. Esse mal pessoal, íntimo, sem bandeira, se multiplica e se profissionaliza quando acha abrigo dentro do narcoterrorismo: o psicopata que antes agia sozinho hoje tem emprego, salário, hierarquia e impunidade dentro de estrutura criminosa que trata vida humana como item de logística. É essa mistura entre maldade individual e maldade organizada que produz a insegurança que o cidadão comum sente todo santo dia — não como estatística, e sim como medo concreto de andar na rua, de mandar o filho pra escola, de abrir a porta de casa de noite. E é por ser íntimo, sem rosto fixo, sem ideologia que o justifique, que esse mal é o mais difícil de processar emocionalmente — e o mais fácil de normalizar socialmente. Até tocar, um dia, a própria família.
No Brasil esse mal também tem siglas: PCC, Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro , Amigos dos Amigos. Milicias. Ou alguma das 84 outras organizações criminosas existentes nesse país. Corporações do crime que profissionalizaram a psicopatia em escala industrial, com hierarquia, logística e domínio territorial onde o Estado simplesmente não chega. Diante desse rosto, a única bandeira que devia contar é a da cidadania ameaçada. Policial, militar, evangélico, católico, de direita, de centro, de esquerda — ninguém que ame este país tem o luxo de fingir neutralidade quando o inimigo nem pergunta a ideologia de quem ele mata.
Yeats terminou o poema perguntando que besta selvagem se arrastava, por fim, rumo a Belém. Era uma pergunta sobre o fim dos tempos. A nossa é mais modesta, mais urgente e, por isso mesmo, mais decisiva: rumo a quê o Brasil se arrasta hoje — e quem, entre nós, vai ter coragem de impedir que essa besta chegue inteira ao destino? Porque se a gente se calar diante do governante que cede soberania, do ministro que decide sozinho, do político que normaliza o roubo, da sociedade que prefere bode expiatório a espelho, e do criminoso que mata como quem joga moeda — então ninguém tem o direito de se surpreender quando, como diz a própria Escritura, até as pedras se levantarem para clamar o que os homens, por covardia, calaram. Que não sejam as pedras. Que sejamos nós: de pé, olho aberto, sabendo exatamente qual mal estamos enfrentando — e dispostos, enfim, a não deixar que a moeda decida por nós.
A geração anterior , de nossos pais e avós de parece com o Xerife Ed Tom Bell. São pessoas que uma moral cristã fortemente assimilada e uma certa sensação de choque, de impotência, diante de uma estranha e nova forma de maldade nesse mundo apocalíptico. A nossa geração se parece com Llewelyn Moss. Tentamos sobreviver, a todo custo, temos certa dose de coragem , certa engenhosidade e um senso de moralidade tardio que, em última análise, determinou seu trágico destino . Moss é habil, e usa seus instintos e habilidades para escapar de seus perseguidores. Sua humanidade e certa recusa em ser totalmente implacável funcionam como uma fraqueza fatal diante um mundo violento, onde a misericórdia não tem mais espaço.
Mas para alguns poucos apenas constatar o mal como Bell, ou reagir a ele como Moss fez é muito pouco. É preciso ir além. É necessário confrontá-lo. Com colhões. Com astúcia. Como missão divina. Mesmo pagando o preço de destruir a própria vida. É encarar, sem temor, no que terá que se transformar para enfrentar com as mesmas armas esse novo profeta da destruição. E viver com isso. Porque existem homens e mulheres que não escolheram a contemplação de Bell nem a fuga de Moss. Escolheram a linha de frente. Entram em becos onde a lei já não chega sozinha. Cruzam a porta antes de saber o que há do outro lado. Que aceitam a fronteira, o mato, a selva e o desconhecido como endereço fixo. Ou são também anônimos, sem distintivo, sem blindagem — que decidem que a covardia não é opção e pagam, muitas vezes, o preço mais alto que existe. Eles sabem o que Bell nunca teve coragem de admitir: que olhar o abismo de frente exige se transformar em algo capaz de devolver o olhar. E sabem o que Moss aprendeu tarde demais: que reagir não basta quando o adversário já decidiu as regras do jogo.
Esses são….imprescindíveis.
Por isso, quando esses homens caem — e muitos caem, em silêncio, sem manchete, sem flores nos noticiários da noite — eles não caem como derrota. Caem como tributo. Como prova de que ainda existe quem aceite pagar com a própria vida pela vida dos outros. A sociedade dorme tranquila porque, em algum lugar, alguém decidiu não dormir. E esses não serão esquecidos. Não pelos arquivos, não pelas estatísticas, não pelos discursos protocolares — mas pela memória viva de quem entende que a civilização não se sustenta sozinha. Ela é sustentada por quem aceitou se tornar o que era preciso para que o mal não vencesse.
Deus nobiscum
Francisco Carneiro Júnior
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Muito boa análise, embora inevitavelmente sombria, de uma nação onde o mal, em todas as suas formas, encontra terreno fértil para vicejar.
Que texto generoso ! Obrigada.