O TERCEIRO BODE EXPIATÓRIO
Tiradentes, Antônio Conselheiro e Jair Bolsonaro:uma arqueologia do sacrifício político no Brasil
O bode expiatório não carrega os pecados do povo.Carrega os pecados que o povo não quer reconhecer como seus.
— René Girard, A Violência e o SagradoA história não se repete, mas rima.
— Atribuído a Mark Twain
PREÂMBULO HISTÓRICO
O Brasil e o seu vício fundacional
Há uma constante na história brasileira que os livros didáticos preferem não nomear: a necessidade periódica de um sacrifício. Não no sentido metafórico suavizado pela linguagem acadêmica, mas no sentido operacional e quase litúrgico do termo. A cada grande inflexão histórica — cada vez que o corpo social se vê incapaz de enfrentar as contradições que ele mesmo gerou —, o sistema produz um homem sobre o qual concentra toda a culpa, toda a desordem, todo o mal que precisa ser expelido. Esse homem é destruído. O sistema respira. O ciclo recomeça.
Este ensaio se debruça sobre três desses momentos. Três figuras que, em épocas distintas e sob regimes políticos diferentes, cumpriram a função estrutural do bode expiatório: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, enforcado e esquartejado em 1792 sob a ordem da Coroa portuguesa; Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, caçado e destruído em Canudos em 1897, nos primeiros anos turbulentos da República; e Jair Messias Bolsonaro, preso, processado e vítima de atentado à vida, na crise política que assola o Brasil contemporâneo. Três séculos. Três contextos radicalmente distintos. Uma lógica singular, obstinada e reconhecível.
A análise que se segue não é hagiografia (biografia de santos). Não se trata de canonizar nenhum dos três — embora um deles já tenha sido canonizado pelo Estado que o matou, transformado em herói nacional precisamente porque os mortos não oferecem resistência. Trata-se de identificar um mecanismo. Uma tecnologia de poder que o Brasil aprendeu cedo e nunca desaprendeu: a capacidade de resolver crises sistêmicas não pela reforma das estruturas, mas pelo sacrifício de um indivíduo que passa a encarnar, na imaginação coletiva, toda a origem do mal.
I — Tiradentes: o alferes que a Coroa escolheu morrer
Em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier subiu ao cadafalso no Largo da Lampadosa, no Rio de Janeiro. Alferes e dentista de patente baixa, ele não era o líder intelectual da Inconfidência Mineira — esse posto pertencia a Tomás Antônio Gonzaga, a Cláudio Manuel da Costa, aos poetas e juristas formados em Coimbra que compunham a elite econômica e intelectual de Minas Gerais. Tiradentes era o agitador, o entusiasmado, o que não sabia calar. E foi exatamente por isso que foi escolhido.
A lógica da seleção foi certeira: condenar os verdadeiros cabeças do movimento implicaria executar abertamente a aristocracia colonial — um escândalo de proporções incalculáveis para a Coroa já fragilizada. A solução foi concentrar toda a culpa num único réu prescindível. Os demais foram degredados ou receberam penas mais leves. Tiradentes foi enforcado, esquartejado e seus pedaços espalhados pelos caminhos de Minas Gerais, no suplício máximo reservado aos crimes de lesa-majestade. Um homem morreu para que o sistema não precisasse se reformar.
O paradoxo do bode expiatório se revelou com toda sua crueldade no desdobramento histórico: a República, ao precisar de um mito fundador, ressuscitou exatamente o homem que o Império havia destruído. Tiradentes foi promovido a herói nacional, mártir da liberdade, patrono cívico — sua data de morte tornou-se feriado nacional. O Estado que o matou foi substituído por um Estado que o glorificou, e ambos se serviram dele com a mesma eficiência. A santificação não foi a correção do erro. Foi a sua sublimação. O mecanismo sacrificial foi preservado; apenas trocou-se a roupagem.
II — Antônio Conselheiro: o profeta que a República precisava destruir
Um século depois, o Brasil vivia outra ruptura institucional. A Proclamação da República, em 1889, não havia sido uma revolução popular — fora um golpe militar conduzido por uma elite positivista que jamais construiu legitimidade junto à população que dizia representar. O regime nascente precisava de um inimigo interno para consolidar sua autoridade e desviar a atenção de uma crise socioeconômica profunda. Encontrou esse inimigo no sertão da Bahia.
Antônio Vicente Mendes Maciel era um pregador errante que fundou o Arraial de Belo Monte — Canudos — e nele reuniu entre vinte e trinta mil pessoas. Sua teologia era conservadora: desconfiava da República laica, recusava o casamento civil, pagava impostos ao Vaticano e não ao governo federal. Era o Brasil profundo que a República iluminista não sabia o que fazer. O Estado e a imprensa da época o rotularam como monarquista, fanático e ameaçador — o rótulo suficiente para justificar o extermínio.
O governo republicano enviou quatro expedições militares contra Canudos. As três primeiras foram repelidas pelos sertanejos, causando humilhação nacional. A quarta destruiu o arraial sistematicamente. Em outubro de 1897, Canudos caiu. Conselheiro havia morrido de disenteria antes do fim, mas seu cadáver foi exumado, sua cabeça decepada e enviada ao Rio de Janeiro para análise científica — os médicos queriam encontrar nos ossos do crânio as marcas biológicas do fanatismo. Não encontraram nada além de um homem.
O que a República matou em Canudos não foi apenas um arraial. Foi uma comunidade funcional que havia resolvido por conta própria os problemas que o Estado era incapaz de resolver para o sertão nordestino. Matou-se o que era diferente, o que resistia, o que não se encaixava — e chamou-se isso de progresso. Ao contrário de Tiradentes, Conselheiro nunca foi ressuscitado como herói nacional. A República não precisou dele como mito fundador; precisou dele apenas como demônio provisório. Destruído o inimigo, o silêncio.
III — O padrão que a história insiste em repetir
Entre Tiradentes e Antônio Conselheiro há cento e cinco anos. Entre Antônio Conselheiro e o presente, mais de cento e vinte anos. Nenhuma dessas distâncias temporais alterou a estrutura profunda do mecanismo. O Brasil continua produzindo, com regularidade perturbadora, figuras sobre as quais concentram a ansiedade coletiva, a desordem social, a crise institucional — figuras que o sistema isola, persegue e destrói, e com cuja destruição imagina restaurar alguma ordem que, de fato, nunca existiu fora da fantasia política dos que exercem o poder.
O denominador comum entre os três casos é preciso: em nenhum deles o sacrifício foi a resposta ao problema real. Tiradentes morreu, e o Brasil Colônia continuou estruturalmente injusto. Canudos foi destruído, e a miséria do sertão nordestino permaneceu intacta por décadas. A lógica não é a do problema resolvido — é a do problema deslocado. O bode expiatório não cura a doença; suspende temporariamente os sintomas, transferindo a angústia coletiva para um corpo singular que pode ser visto, nomeado, perseguido e eliminado.
O que muda, em cada ciclo, são as roupagens: a Coroa portuguesa deu lugar à República oligárquica, que deu lugar à democracia liberal do século XXI. O que não muda é a necessidade do sacrifício. Não porque os brasileiros sejam essencialmente cruéis — mas porque as elites brasileiras aprenderam, desde os tempos coloniais, que é mais barato destruir um homem do que reformar uma estrutura.
É neste ponto que a análise filosófica se torna indispensável. Porque o que está em jogo não é apenas a história política de três indivíduos. É uma questão de ordem ontológica: por que as sociedades precisam de bodes expiatórios? O que esse mecanismo revela sobre a natureza do poder, da violência e da coesão social? Três filósofos fornecem as lentes mais precisas para essa dissecção: Hegel, que nos dá a gramática da dialética histórica e do reconhecimento; Ernst Cassirer, que nos permite entender o papel do mito político na construção e destruição de identidades; e René Girard, que nomeou com precisão cirúrgica o mecanismo que atravessa os três séculos aqui examinados.
Cada um deles ilumina um aspecto diferente — e complementar — da mesma tragédia. Hegel nos mostra o lugar do sacrifício na marcha do Espírito; Cassirer nos revela como o mito transforma o homem real em símbolo funcional; Girard nos explica por que o sangue do inocente, derramado diante da multidão, produz, ao menos temporariamente, a paz que o sistema não sabia construir por outros meios.
É com essas ferramentas que examinaremos o terceiro bode expiatório.
PRIMEIRA PARTE: A LENTE DE HEGEL
I — O Caldo de História , a Dialética e a Gênese do Bolsonarismo
Tudo o que é racional é real; e tudo o que é real é racional.
— G.W.F. Hegel, Princípios da Filosofia do Direito
Hegel não era um pensador da revolução. Era, em sentido específico, o filósofo da ordem que se transforma — e há uma diferença brutal entre as duas coisas. Para ele, a história não é caos nem acidente: é o movimento do Espírito rumo à consciência de si mesmo, um processo que avança através do conflito entre opostos e que só produz algo genuinamente novo quando a tensão entre eles se torna insustentável. A tese afirma. A antítese nega. Da colisão entre ambas emerge a síntese — não como compromisso morno entre as partes, mas como algo que as contém, as supera e as torna irreconhecíveis em sua forma anterior. É nesse quadro que o fenômeno político brasileiro dos anos 2010 deixa de ser episódio contingente e revela sua estrutura profunda. O Brasil não elegeu Bolsonaro apesar de sua história recente. O elegeu por causa dela. O que o país fez em outubro de 2018 foi o que toda sociedade faz quando a tensão acumulada ultrapassa o limiar do tolerável: produziu a antítese.
A tese estava construída há décadas. O Partido dos Trabalhadores chegou ao poder em 2003 carregando a promessa de um Brasil diferente — mais justo, mais soberano, mais voltado para os de baixo. E durante algum tempo essa promessa gerou o que toda tese eficaz gera: coesão, esperança, identidade coletiva. Mas a tese carrega sempre dentro de si as sementes de sua própria negação, e o PT as carregava com generosidade histórica. O que emergiu não foi apenas a corrupção — endêmica em qualquer sistema político maduro — mas algo estruturalmente mais grave: a captura do Estado como projeto deliberado, a cooptação sistemática de instituições, a construção de uma hegemonia que confundia partido com nação e governo com destino histórico. O escândalo do Mensalão, a Lava Jato, os desvios bilionários na Petrobras, o aparelhamento das universidades, das agências regulatórias, da mídia pública — tudo isso não era desvio da rota. Era a rota. E o povo brasileiro, com a lentidão dos que levam tempo para nomear o que estão vendo, foi acumulando dentro de si o elemento que Hegel identifica como o motor da antítese: a experiência da contradição insuportável entre o que lhe foi prometido e o que lhe foi entregue.
Hegel sabia que a síntese não escolhe seu porta-voz com elegância acadêmica. Ela irrompe. E irrompe com a violência de tudo que foi reprimido por tempo demais. Jair Bolsonaro não foi uma construção de marketing político, não foi um candidato fabricado por consultores em salas climatizadas: foi a forma que a antítese encontrou para entrar em campo. Um homem áspero, sem verniz institucional, que falava o que os outros fingiam não pensar — e que por isso mesmo soou, a milhões de brasileiros, como a única voz autêntica num país onde a linguagem pública havia se tornado integralmente cifrada e mentirosa. Hegel, em seu conservadorismo profundo, jamais idealizou o povo como reservatório de virtude. Mas compreendeu que há momentos em que a massa social, cansada de carregar o peso de uma ordem que já não se justifica, encontra num indivíduo a expressão concentrada de sua própria negação histórica. Bolsonaro era a síntese possível naquele momento: a rejeição da esquerda cultural, do globalismo, do Estado capturado, da elite que governa pelo controle da narrativa. Era, em termos hegelianos, o real que se impõe porque o racional da ordem anterior havia se esgotado. Quem recusou enxergar isso não estava fazendo análise. Estava fazendo luto.
SEGUNDA PARTE: A LENTE DE CASSIRER
II — O Animal Simbólico e o Homem Chamado Mito
O homem não pode escapar de sua própria conquista. Ele não pode mais enfrentar a realidade de modo imediato. Em vez disso, deve sempre comunicar-se com ela através de formas simbólicas.
— Ernst Cassirer, Ensaio sobre o Homem
Ernst Cassirer passou décadas construindo o argumento de que o ser humano não vive no mundo — vive na sua interpretação do mundo. Entre o homem e a realidade existe sempre uma rede de símbolos que a media, a filtra, a transforma. Não é patologia. É a condição estrutural da espécie. O cachorro sente a tempestade. O homem nomeia a tempestade, a incorpora num sistema de significados, a transforma em sinal de algo maior que ela mesma. É essa capacidade — e não a inteligência técnica, não a linguagem no sentido estrito — que nos torna radicalmente distintos de tudo o mais que existe. Somos animais simbólicos. E quando Cassirer aplicou essa tese à política, chegou à conclusão mais sombria e mais precisa de toda a sua obra: o mito político não é um resíduo primitivo que a modernidade superou. É uma força que dorme, que pode ser despertada, e que quando acorda consome a razão com a velocidade de um incêndio em campo seco. O que ele não previu — porque não podia — é que um dia um país chamaria seu líder político, sem ironia e sem constrangimento, simplesmente de Mito.
O apelido não foi acidente. Foi diagnóstico involuntário. Quando milhões de brasileiros passaram a chamar Jair Bolsonaro de Mito, estavam dizendo, sem saber que diziam, exatamente o que Cassirer diria sobre o fenômeno: que ali havia algo que havia ultrapassado o plano da política convencional e operava no registro do simbólico puro. Bolsonaro condensou, num único corpo político, o conjunto de símbolos que o Brasil conservador carregava dispersos e sem nome: a família como ordem natural, a fé como fundamento, a nação como lealdade que precede o Estado, o homem comum como portador de uma sabedoria que a universidade sequestrou e corrompeu. Isso não era programa de governo. Era cosmologia. Era a oferta de um universo simbólico alternativo e coerente para uma população que havia assistido ao seu próprio universo simbólico ser sistematicamente desmontado pela engenharia cultural da esquerda ao longo de trinta anos — nas escolas, nas novelas, nas universidades, nas agências regulatórias, nos museus, na linguagem. Cassirer sabia que o mito não vence por ser mais verdadeiro. Vence por ser mais total. Por oferecer não apenas uma explicação, mas uma identidade. E identidade, para o ser humano, vale mais que argumento.
Mas Cassirer sabia também o que acontece com os mitos quando o poder que os gerou entra em colapso — ou quando o sistema decide que o mito se tornou perigoso demais para permanecer em pé. O mito não é destruído pelos fatos: os fatos deslizam sobre ele sem penetrar, porque o mito não opera no plano dos fatos, opera no plano do sagrado. O mito é destruído pelo rito inverso: pela profanação, pela humilhação pública, pelo tribunal que não julga crimes mas encena a degradação simbólica do portador do símbolo. O que o aparato judicial brasileiro fez com Bolsonaro — a inelegibilidade, a prisão, o processo incessante — não foi, em termos cassirerianos, processo jurídico. Foi um ritual de expulsão. Foi a tentativa de desfazer simbolicamente o que havia sido construído simbolicamente. E aqui Cassirer teria apontado o erro fatal de quem assim procede: a perseguição do mito não o dissolve. O alimenta. O mártir é a versão mais poderosa do herói, porque ao mártir não se pode mais fazer nada — já lhe foi feito tudo. Cada processo, cada condenação, cada grade a mais confirma para os que creem não a culpa do acusado, mas a natureza do sistema que o acusa. O Brasil, ao tentar destruir o Mito pelos instrumentos do Estado, fez precisamente o que Cassirer teria previsto: transformou um político derrotado numa figura de proporções quase religiosas. Construiu, com as próprias mãos, o terceiro bode expiatório.
TERCEIRA PARTE: A LENTE DE GIRARD
III — O Mecanismo, a Multidão e o Inocente
A vítima não é perseguida porque é culpada.É declarada culpada porque precisa ser perseguida.
— René Girard, O Bode Expiatório
René Girard passou a vida descrevendo um mecanismo que as sociedades precisam operar mas jamais podem admitir que operam. Sua tese central é incômoda com a precisão das verdades que incomodam porque são verdadeiras: quando a violência interna de uma comunidade atinge o limiar do insuportável — quando as rivalidades se multiplicam, quando a tensão social não encontra válvula de escape, quando o corpo coletivo começa a se devorar — a sociedade não resolve o conflito. Ela o redireciona. Encontra uma figura, um indivíduo ou grupo, sobre o qual despeja a totalidade da hostilidade acumulada. Essa figura é destruída ou expulsa. E no instante da destruição, algo extraordinário e perturbador acontece: a comunidade respira. As rivalidades que pareciam insolúveis são suspensas. A coesão retorna. A paz — ilusória, temporária, mas real o suficiente para ser sentida — se reinstala. Girard chamou isso de mecanismo do bode expiatório. E sua descoberta mais sombria não foi o mecanismo em si. Foi a certeza que o acompanha: a vítima é sempre inocente. Não é culpada do que lhe imputam. É simplesmente aquela que o momento elegeu — visível o suficiente, diferente o suficiente, vulnerável o suficiente para receber o que a comunidade precisava expelir.
Observe o Brasil entre 2022 e os anos que se seguiram com os olhos de Girard e a névoa da narrativa dominante se dissipa com brutalidade. O que estava em colapso não era a democracia — palavra usada como escudo por quem precisava de legitimidade para o que fazia. O que estava em colapso era a hegemonia de um sistema que havia capturado o Estado, o Judiciário, as universidades, a grande imprensa e boa parte das instituições republicanas, e que viu nessa captura ameaçada por um governo que não havia sido comprado, cooptado nem domesticado. A tensão mimética que Girard descreve — aquela escalada em que o objeto original desaparece e o que resta é a rivalidade pura — operava em velocidade máxima. Bolsonaro havia deixado de ser um político a ser derrotado nas urnas e se tornado o inimigo necessário, a figura cuja destruição era condição para que o sistema se reconsolidasse. O ódio que se abateu sobre ele não era avaliação de seu governo. Era o mecanismo funcionando. As acusações se multiplicavam sem que nenhuma precisasse ser provada com rigor, porque o mecanismo não precisa de prova — precisa de unanimidade. E a unanimidade foi sendo construída metodicamente: pela mídia que escolheu o partido, pelo Judiciário que escolheu o alvo, pelas redes sociais que amplificaram o ódio com a eficiência que Girard jamais poderia ter imaginado mas teria reconhecido imediatamente. O clique substituiu a pedra. O tribunal midiático substituiu o cadafalso. A função permaneceu idêntica.
Mas Girard identificou também o ponto em que o mecanismo revela sua própria falsidade — e o faz exatamente quando vai longe demais. Quando a perseguição se torna sistemática demais, processual demais, ostensiva demais, ela começa a produzir o efeito contrário ao pretendido. Em vez de dissolver a figura do bode expiatório, a consagra. Em vez de apagar o símbolo, o grava em pedra. A facada em 2018, a inelegibilidade de 2022, a prisão — cada golpe desferido contra Bolsonaro cumpriu, no imaginário de dezenas de milhões de brasileiros, a mesma função que o esquartejamento de Tiradentes e a decapitação de Conselheiro cumpriram em seus respectivos momentos: transformou o perseguido em prova viva de que o sistema teme o que não consegue controlar. Girard era cristão e via na figura de Cristo a exposição mais radical e mais lúcida do mecanismo — uma vítima inocente declarada culpada pela multidão, cuja execução deveria encerrar a questão e que, ao contrário, a eternizou. Não é necessário nenhum paralelo teológico para entender o que está em jogo no caso brasileiro. Basta a lógica fria do mecanismo: quando o sistema condena um homem com os instrumentos da lei mas a velocidade e a unanimidade da turba, ele não está exercendo a justiça. Está exercendo o sacrifício. E os sacrifícios, como Girard demonstrou com uma vida inteira de pesquisa, não resolvem as crises que os motivam. Apenas as empurram para o ciclo seguinte — onde a tensão voltará a acumular, a vítima seguinte será escolhida, e a multidão voltará a acreditar, com a mesma sinceridade de sempre, que desta vez está fazendo a coisa certa.
CONCLUSÃO
O Brasil que não aprendeu e o ciclo que não termina
Tiradentes foi esquartejado e o Brasil Colônia continuou exatamente o que era. Canudos foi incendiado e o sertão nordestino continuou exatamente o que era. O padrão não é coincidência — é confissão. Cada vez que o Brasil sacrificou um homem no altar da ordem, o que estava em colapso não era o homem: era o sistema que o sistema não queria reparar. O bode expiatório é sempre a prova de que quem o escolhe não tem solução para o problema real — tem apenas necessidade urgente de que alguém pareça ser o problema. Hegel viu nisso a dialética que não foi completada. Cassirer viu o mito que o poder fabricou para sobreviver. Girard viu o sacrifício que a multidão executou convicta de que fazia justiça. Os três disseram a mesma coisa com linguagens diferentes: uma sociedade que resolve suas crises pelo sangue de um inocente não resolve nada. Empurra. E o que foi empurrado volta — maior, mais carregado, mais irresolúvel do que antes. O Brasil não aprendeu isso com Tiradentes. Não aprendeu com Canudos. A questão que fica suspensa no ar, sem resposta confortável disponível, é brutal na sua simplicidade: aprenderá agora?
Quem lê este ensaio e sente desconforto está sentindo a coisa certa. O desconforto não vem das ideias — vem do reconhecimento. Vem de perceber que o mecanismo descrito aqui não opera apenas nos livros de história nem apenas nas decisões de outros. Opera em quem assinou petição, em quem aplaudiu a prisão, em quem sentiu alívio quando o inimigo caiu — sem perguntar se a culpa era real ou apenas necessária. Girard avisou: o mecanismo só funciona enquanto for invisível. Enquanto o ódio parecer justiça. Enquanto a unanimidade parecer verdade. Este texto existe para nomear o que estava sem nome. Para tornar visível o que preferia continuar nas sombras. Um país que não consegue olhar para si mesmo com honestidade não é um país livre — é um país que aguarda, já sem perceber, o nome do próximo bode expiatório.
Francisco Carneiro Júnior
E você, o que acha ? Concorda com o que eu escrevi? Escreva aqui nos comentários.
Considere subscrever no melhor site sobre Segurança e Geopolítica do Substack . É gratuito. E fique bem informado! Basta colocar seu email no lugar indicado
Por trás de cada análise séria, há pesquisa, tempo e compromisso com a verdade. Para a sobrevivência do Canal, é imprescindível que voce ajude. Doe qualquer valor para:
Pix: franciscocarneiro150@gmail.com
Esse texto foi escrito para quem tem olhos para ver. Compartilhe com quem ainda está com os olhos fechados.


Boa noite! Sinceramente, espero que o nosso País aprenda agora com os erros do passado. Basta um Tiradentes, basta um Antônio Conselheiro e basta um Jair Messias Bolsonaro, o Mito.
Contextualização e analogias perfeitas. Congratulações. Queira Deus e o povo brasileiro que a história não se repita como farsa.